A Epopeia do Reizinho Reinento – Capítulo I – Aquela história tão mal contada que funciona

Canta, ó musa do teatro de revista, o que te der vontade, mesmo que nos embrulhe o estômago qual vinho avinagrado. Tua epopeia, bem sabemos, tem um eixo condutor incerto e é conduzida por mãos bisonhas. Tua personagem principal é a falha do sistema que corrobora o tresloucado caminhar da humanidade. Ainda assim, insistimos: canta! Tua voz em falsete arrepia quaisquer pelinhos da nuca. Mas deixe de lado o “era uma vez” porque já passamos dessa fase. Passamos, pois, ao tome tento.

– Tome tento, diziam os mais antigos. Tal era a frase mais repetida daquele reino nada distante, que ainda hoje vigora em sintonia baixa. A terra, em princípio, era mais que boa. Bastava plantar que tudo vingava – claro que uma reforma agrária também cairia bem. A gente que ali chegou trouxe na bagagem arrependimentos e uma fome sem tamanho. A natureza era colorida, virgem como intocada pitonisa. O solo foi desbravado. A jabuticaba e um jeitinho característico daquele povo brotaram em simultaneidade. Depois das pessoas, um Governo. Tímido, no começo. Desembestado, tratou logo a se chamar de Estado. Por fim, ganhou ares de Reino. E, não sem muitos subterfúgios, a Política passou a aprontar das suas.

O primeiro rei a tomar tento tomou também muitas outras coisas – para um esclarecimento mais aprofundado, a musa chama tais coisas de impostos. As reclamações só fizeram aumentar porque os impostos eram ainda pior do que propaganda enganosa. Traição pura e simples. Ninguém fica feliz em ser considerado estúpido, mesmo que implicitamente. Mesmo quando passaram a ser indicados pela população por meio de votação popular, os reis titubeavam demais naquilo que era mais essencial. Entretanto, uma parte minúscula de toda a gente se beneficiava. Porque sempre ao lado dos estúpidos se escoram os malandros. Vai daí que o poder girava em círculos nas mãos de uns poucos, como uma batata quente que jamais esfria. Tal cenário só poderia resultar na negação de si mesmo.

E eis que o caminho para a chegada do Reizinho Reinento estava aberto. Primeiro, tentou a carreira de mosqueteiro, mas era sobremaneira desastrado para tamanha responsabilidade. Conseguiu uma vaga de vigia noturno, capitaneando ações em benefício próprio. Pouco depois, uma bomba explodiu durante seu turno e lhe imputaram um descanso forçado – remunerado, é claro. Entrou na política porque os requisitos eram triviais – e a inteligência, evidentemente, não era um deles. Para uns, seu jeitão se assemelhava ao de um bobo da corte. Para outros, ele o era de fato. Ainda assim, legislou sem fazer nenhuma lei e soube aparecer nos lugares de visibilidade para se tornar popular. Foi por essa época que ganhou a alcunha de Reinento. Típico daqueles que temem a própria sombra, mas emulam uma coragem ilimitada. A corte estava para lá de fragmentada (eram tantos os partidos políticos!); os cidadãos relegados ao papel de eleitores. Sim, você deduziu certo: o Reinento floresceu naquele momento em que até as ervas daninhas prospera sob aplausos. Distribuindo frases incompletas e sem sentido, sua imagem de outsider colou. O Reinento venceu o sufrágio amparado pela amargura, o rancor, o ódio e uma ligeira sensação de que tudo seria diferente. O bobo da corte alcançara o mais elevado grau do Reino de Echinata.

O Reizinho Reinento, enfim, sentara no trono – mas precisava de alguém para lhe explicar como funcionava a descarga.

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