A Epopeia do Reizinho Reinento – Capítulo II – Os primeiros dias de cores e valsas

Eita que a cantoria da musa segue interessante, apesar de todo o resto ser lamentável. Fontes que não quiseram ser identificadas garantem que o Reizinho Reinento não curte música, tampouco aprecia as artes. Segundo consta, ao realizar a prova para uma vaga de Mosqueteiro, confundiu barroco com rococó e, desde então, amaldiçoa os artistas. Além de não conseguir a vaga, ficou em último no concurso. Outros tempos. Agora, os que riram dele no passado tinham de vê-lo desfilar com a coroa soberana. Às escondidas, porém, ensaia uns passos de valsa com seu criado mais chegado.

Logo que sentou no trono, sentiu o primeiro desconforto. Algum sacripanta, provavelmente da administração anterior, deixara uma tachinha escondida na almofada. Reinou de verdade pela primeira vez. Sua trupe de ministros conteve o riso. Reinento que só ele, ainda durante a campanha, prometera encolher o reino para evitar os gastos públicos. Mesmo assim, manteve praticamente o mesmo número de empregados por exigência de seus apoiadores. Satisfeitos com seus polpudos ganhos e suas amplas equipes de subalternos, os novos ministros trataram de colocar as mangas de fora – expressão que àquela época significava repetir os erros de modo ainda pior.

O Reizinho Reinento mandou um arauto ler em praça pública que aumentaria os impostos sobre escambo de moedas. Mais tarde, no mesmo dia, o ministro de Economia e Gastança desmentiu o aumento anunciado pelo soberano. “Foi um ato falho de nossa alteza”, comentou. Como ninguém insistiu no assunto, prometeu anunciar em breve as expectativas econômicas (um outro modo de dizer que vai gastar o quanto puder).

Já a ministra dos Familiares, Amigos e Bons Vizinhos causou certo constrangimento no reino ao se incluir na lista das mais bonitas da corte, fazendo troça às oposicionistas. Com seu irresponsável senso de humor, afirmou ainda que no palácio real e nas dependências oficiais azul será a cor da vestimenta oficial dos cavalheiros e às damas caberá o rosa e apenas o rosa. Pessoas coloridas da boa vizinhança não riram.

Aquele novo governo tinha verdadeira obsessão por essa pauta de cores. “Troquem essas cadeiras vermelhas por poltronas azuis porque elas me fazem recordar do reinado anterior”, ordenou o Reizinho aos serviçais. E a gastança teve início fora do ministério que lhe competia!

Ainda na primeira semana, um enviado especial do Reino das Colônias Unidas do Norte tentou convencer o Reizinho a instalar uma base militar no Reino de Echinata. Os olhos do soberano brilharam de alegria com tal ideia. Mas tudo terminou em birra real quando o vice-rei demonstrou quão idiota seria acatar a sugestão de um forasteiro interesseiro.

Assim transcorreram os primeiros dias Reizinho Reinento. Nada funcionou como o esperado, mas pelo menos ele estava melhorando ao dançar valsas de guerra. Já conseguia até realizar rodopios completos sem se estatelar no chão.

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