Author Archives: Evandro Duarte

A Epopeia do Reizinho Reinento – Capítulo II – Os primeiros dias de cores e valsas

Eita que a cantoria da musa segue interessante, apesar de todo o resto ser lamentável. Fontes que não quiseram ser identificadas garantem que o Reizinho Reinento não curte música, tampouco aprecia as artes. Segundo consta, ao realizar a prova para uma vaga de Mosqueteiro, confundiu barroco com rococó e, desde então, amaldiçoa os artistas. Além de não conseguir a vaga, ficou em último no concurso. Outros tempos. Agora, os que riram dele no passado tinham de vê-lo desfilar com a coroa soberana. Às escondidas, porém, ensaia uns passos de valsa com seu criado mais chegado.

Logo que sentou no trono, sentiu o primeiro desconforto. Algum sacripanta, provavelmente da administração anterior, deixara uma tachinha escondida na almofada. Reinou de verdade pela primeira vez. Sua trupe de ministros conteve o riso. Reinento que só ele, ainda durante a campanha, prometera encolher o reino para evitar os gastos públicos. Mesmo assim, manteve praticamente o mesmo número de empregados por exigência de seus apoiadores. Satisfeitos com seus polpudos ganhos e suas amplas equipes de subalternos, os novos ministros trataram de colocar as mangas de fora – expressão que àquela época significava repetir os erros de modo ainda pior.

O Reizinho Reinento mandou um arauto ler em praça pública que aumentaria os impostos sobre escambo de moedas. Mais tarde, no mesmo dia, o ministro de Economia e Gastança desmentiu o aumento anunciado pelo soberano. “Foi um ato falho de nossa alteza”, comentou. Como ninguém insistiu no assunto, prometeu anunciar em breve as expectativas econômicas (um outro modo de dizer que vai gastar o quanto puder).

Já a ministra dos Familiares, Amigos e Bons Vizinhos causou certo constrangimento no reino ao se incluir na lista das mais bonitas da corte, fazendo troça às oposicionistas. Com seu irresponsável senso de humor, afirmou ainda que no palácio real e nas dependências oficiais azul será a cor da vestimenta oficial dos cavalheiros e às damas caberá o rosa e apenas o rosa. Pessoas coloridas da boa vizinhança não riram.

Aquele novo governo tinha verdadeira obsessão por essa pauta de cores. “Troquem essas cadeiras vermelhas por poltronas azuis porque elas me fazem recordar do reinado anterior”, ordenou o Reizinho aos serviçais. E a gastança teve início fora do ministério que lhe competia!

Ainda na primeira semana, um enviado especial do Reino das Colônias Unidas do Norte tentou convencer o Reizinho a instalar uma base militar no Reino de Echinata. Os olhos do soberano brilharam de alegria com tal ideia. Mas tudo terminou em birra real quando o vice-rei demonstrou quão idiota seria acatar a sugestão de um forasteiro interesseiro.

Assim transcorreram os primeiros dias Reizinho Reinento. Nada funcionou como o esperado, mas pelo menos ele estava melhorando ao dançar valsas de guerra. Já conseguia até realizar rodopios completos sem se estatelar no chão.

A Epopeia do Reizinho Reinento – Capítulo I – Aquela história tão mal contada que funciona

Canta, ó musa do teatro de revista, o que te der vontade, mesmo que nos embrulhe o estômago qual vinho avinagrado. Tua epopeia, bem sabemos, tem um eixo condutor incerto e é conduzida por mãos bisonhas. Tua personagem principal é a falha do sistema que corrobora o tresloucado caminhar da humanidade. Ainda assim, insistimos: canta! Tua voz em falsete arrepia quaisquer pelinhos da nuca. Mas deixe de lado o “era uma vez” porque já passamos dessa fase. Passamos, pois, ao tome tento.

– Tome tento, diziam os mais antigos. Tal era a frase mais repetida daquele reino nada distante, que ainda hoje vigora em sintonia baixa. A terra, em princípio, era mais que boa. Bastava plantar que tudo vingava – claro que uma reforma agrária também cairia bem. A gente que ali chegou trouxe na bagagem arrependimentos e uma fome sem tamanho. A natureza era colorida, virgem como intocada pitonisa. O solo foi desbravado. A jabuticaba e um jeitinho característico daquele povo brotaram em simultaneidade. Depois das pessoas, um Governo. Tímido, no começo. Desembestado, tratou logo a se chamar de Estado. Por fim, ganhou ares de Reino. E, não sem muitos subterfúgios, a Política passou a aprontar das suas.

O primeiro rei a tomar tento tomou também muitas outras coisas – para um esclarecimento mais aprofundado, a musa chama tais coisas de impostos. As reclamações só fizeram aumentar porque os impostos eram ainda pior do que propaganda enganosa. Traição pura e simples. Ninguém fica feliz em ser considerado estúpido, mesmo que implicitamente. Mesmo quando passaram a ser indicados pela população por meio de votação popular, os reis titubeavam demais naquilo que era mais essencial. Entretanto, uma parte minúscula de toda a gente se beneficiava. Porque sempre ao lado dos estúpidos se escoram os malandros. Vai daí que o poder girava em círculos nas mãos de uns poucos, como uma batata quente que jamais esfria. Tal cenário só poderia resultar na negação de si mesmo.

E eis que o caminho para a chegada do Reizinho Reinento estava aberto. Primeiro, tentou a carreira de mosqueteiro, mas era sobremaneira desastrado para tamanha responsabilidade. Conseguiu uma vaga de vigia noturno, capitaneando ações em benefício próprio. Pouco depois, uma bomba explodiu durante seu turno e lhe imputaram um descanso forçado – remunerado, é claro. Entrou na política porque os requisitos eram triviais – e a inteligência, evidentemente, não era um deles. Para uns, seu jeitão se assemelhava ao de um bobo da corte. Para outros, ele o era de fato. Ainda assim, legislou sem fazer nenhuma lei e soube aparecer nos lugares de visibilidade para se tornar popular. Foi por essa época que ganhou a alcunha de Reinento. Típico daqueles que temem a própria sombra, mas emulam uma coragem ilimitada. A corte estava para lá de fragmentada (eram tantos os partidos políticos!); os cidadãos relegados ao papel de eleitores. Sim, você deduziu certo: o Reinento floresceu naquele momento em que até as ervas daninhas prospera sob aplausos. Distribuindo frases incompletas e sem sentido, sua imagem de outsider colou. O Reinento venceu o sufrágio amparado pela amargura, o rancor, o ódio e uma ligeira sensação de que tudo seria diferente. O bobo da corte alcançara o mais elevado grau do Reino de Echinata.

O Reizinho Reinento, enfim, sentara no trono – mas precisava de alguém para lhe explicar como funcionava a descarga.

Imitação de Universo (uma introdução à Epopéia do Reizinho Reinento)

O COMEÇO

Não foi uma decepção quando aquele universo teve sua aurora porque não havia ninguém para reclamar. O despertar fulgurante foi um desastre sem testemunhas. Caos, aniquilação, matéria explodindo e muita, mais muita poeira. Asmáticos, se existissem à época, estariam perdidos. Ainda assim, TUDO começou. Anos mais tarde – modo de falar, claro, porque ninguém sabe ao certo quanto tempo se passou –, uma raça dita humana denominaria aquele evento fundador. Após muita controvérsia, embriaguez desnecessária e tapas nas caras, chegaram num acordo não muito convincente. O episódio ganhou então a alcunha de Big Bank, num estrangeirismo típico de quem ainda se vê colônia. E, não sem outro motivo, por um grande banco privado ser o patrocinador principal daquela pesquisa científica.

A DEMORA

Para que TUDO funcionasse demorou um bocado. Muitos garantem que ainda não estamos nessa fase, principalmente na questão do atendimento ao público. O Big Bank, no entanto, deixou marcas indeléveis na vastidão do cosmo. Soltos, aqui e acolá, singularidades que fariam qualquer manifestação plural guardar seus cartazes e ir de mansinho para casa. Buracos Negros são pequenos lembretes da natureza: “E se me irritarem, olha só o que eu faço!”. O universo tem um humor bastante peculiar. A primeira experiência com a vida se deu no acaso; uma experiência furtiva que combinou a proximidade com uma estrela brilhante, mantendo-se na exata distância de um bem estar consigo mesma. As partículas se juntaram, tomando um formato oval, quase oblongo diriam uns mais poéticos. O planeta deu-se por satisfeito no tamanho e tratou de se resfriar. Água jorrando e num estalar de dedos (se dedos houvesse) a vida brotou. Primeiro, unicelular e errática. Depois, gigantesca e volumosa como um dinossauro. Outras espécies apareceram. Entre elas, a girafa que herdou um pescoço desnecessário. Há também a barata, que parece uma metáfora sobre a importância dos miúdos. A humanidade surgiu ali pelo meio, é bom que se fale para que ninguém fique fazendo birra depois.

O TEMPO

Com a humanidade, TUDO ficou em segundo plano. O TEMPO tomou o lugar principal nas rodas de conversa ao redor de fogueiras paleolíticas. A descoberta do fogo trouxe conforto e inconvenientes. A carne poderia ser assada e as noites menos frias; em contraponto, quem seria o responsável por trazer a lenha e como dormir com a luz crepitando? Qual o quê! Aquele ser novato que teimava em caminhar com apenas dois membros foi muito além do que o próprio Big Bank previra. Criou objetos úteis como a faca e a roda, e forjou conceitos que ainda não passaram pelo teste do tempo, como o TEMPO-ele-próprio. Algumas ideias parecem boas por princípio, mas tendem a ser substituídas com o passar das estações. O TEMPO bateu forte na inteligência dos humanos que decidiram criar alguma forma de imortalidade. Daí, o exagero soou brando, afagando uma alma carente de afeto. Logo, surgiu a exploração de uns sobre outros, do oportunista sobre o desavisado, do forte sobre o fraco. E obras colossais tiveram seus dias de glória. Pirâmides aqui e acolá; estátuas de deuses e muralhas quilométricas; palcos de arte e de lutas mortais. Claro, tudo isso teve um preço alto – e a desvalorização das moedas não ajudou em nada.

A CHEGADA

Porque toda narrativa parte de um presente, temos também o nosso. Eis o momento d’A CHEGADA, porque aqui chegamos. Ainda é um período obscuro. Poderíamos chamá-lo de Era das Trevas ou Modernidade; de Medievalismo ou de Contemporâneo. Tanto faz o nome, porque A CHEGADA não é para principiantes. Enquanto a política e a economia determinam o sucesso das nações, um bêbado se embriaga numa taverna qualquer sem dar por isso. Mas o bêbado não é a estrela principal nessa narrativa, então deixá-lo-emos de lado. A onda conservadora chegou com o jeitão desengonçado de um Tsunami. Todos os críticos e analistas sabem que tal modelo também chegará ao fim, mas o estrago projetado pode não ter precedentes. Se vaidoso fosse, o Big Bank ficaria orgulhoso – ou, ao menos, o banco que o batizou. Há uma sensação de nostalgia no ar, um clima de déjà vu nada agradável porque remonta aos dias de idiotia. A opressão vem comendo pelas beiradas, como quem engole a sopa recém saída do caldeirão. Bruxas e magos temem pelos próximos atos institucionais. A apreensão domina a pauta do dia desde que a prensa de tipos móveis surgiu faz algum tempo. Por nosso lado, temos essa infiltração na tecnologia e vamos narrando a história com qualquer resquício de liberdade que encontramos pelo caminho. O sorriso no rosto não é de tristeza. É sarcasmo.