Author Archives: Evandro Duarte

Lá no estrangeiro

Não é o caso de não me interessar por política internacional. Pelo contrário. A questão é unicamente de perspectiva, colocando cada espaçonave no seu planeta natal, porque de alienígenas já temos em demasia no cinema. Não duvido que um adolescente, aquele típico rapazote que curte esportes, baladas e outras diversões, saiba mais nomes de presidentes dos Estados Unidos do que do Brasil. Do Sarney para trás quase ninguém lembra, tirando o Juscelino, o Getúlio e, talvez, o Floriano Peixoto – mas só porque Florianópolis deve seu nome ao marechal das mãos de ferro. É só comparar os destaques na mídia que obtiveram Lincoln, de Steven Spielberg, e Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto.

Mas lá no estrangeiro as coisas não são com aqui. Se as percepções sociais mudam de estado para estado, mesmo de cidade para cidade, imaginem de um país para o outro! Por certo que muitos dos problemas são os mesmos, como o déficit educacional, a inoperância do sistema de saúde, as infraestruturas que distanciam ainda mais os ricos dos pobres. Ainda assim, estamos juntos, como num casamento aberto, unidos por nossas semelhanças e diferenças. Se as bombas atômicas explodirem, não vai adiantar muito ter dinheiro ou notas promissórias; isso que é matrimônio! Por isso nos preocupamos sempre com tudo.

O caso que me aborrece é o daquele sujeito que reclama das cobranças do FMI, mas não aceita que o vizinho venha lhe pedir para fazer menos barulho. Esse cidadão é mesmo um pulha, porque logo que soube da morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, veio com suas teorias e opiniões sobre direita/esquerda, a América Latina, e o mundo contemporâneo. E enquanto ele fala, entre um gole e outro de cerveja, os outros presentes no botequim continuam jogando sinuca, como se fosse possível colocar a bola preta da política internacional no buraco do canto.

chavez

Chávez deixou a franquia presidencial no dia 05/03/2013, tendo a ocupado desde o dia 02/02/1999. Com sua morte em Caracas, aos 58 anos, pouco ou nada mudará na vida do pulha barulhento – salvo se este promover uma festa bolivariana para homenagear Chávez até as altas horas da madrugada, para azar de seu vizinho. Porque todos entendem muito mais da vida dos outros do que das suas próprias. “O gramado do vizinho venezuelano é mais bonito que o meu”, eles dizem. E citam também Cuba enquanto único foco de resistência nesse planeta globalizado: abaixo as oligarquias!

E há tamanha bobagem espalhada nesses discursos de frases feitas que o convite ao riso é inevitável. Brasil, Venezuela, Cuba, Estados Unidos; não importa o país se qualquer um acreditar que tomar partido é fechar os olhos para os desvios de conduta internos. A favor de uma revolução que só existe na ficção da má literatura, aqueles complacentes partidários apoiam regimes de exceção, ditaduras travestidas de democracias, ações de governos que não representam as obrigações do Estado, e por aí vai. Quem aceita isso com devoção é mau caráter. O tipo de pessoa que deseja salvar a humanidade, mas não dá bola para o ser humano ao lado, pedindo por socorro. E é realmente lamentável que esta postura seja tão bem distribuída entre a esquerda, a direita e todo o resto.

O adeus de Chávez acontece por que a morte é tão inevitável quanto rir de uma piada. Mal comparando, podemos dizer que sua existência não poderia ter sido diferente de um romance sem final feliz. O presidente-comandante Hugo Chávez sobreviveu aos golpes políticos, mas perdeu a briga para o câncer. E esta é uma história tão comum entre nós que pode ser entendida como outra oportunidade para conhecer a si mesmo, atendendo o apelo da pitonisa de Delfos – afinal, já na Grécia de outrora alguns percebiam que lá do estrangeiro não virão apenas boas notícias.

Quase uma ressaca

Ali perto do agito das ruas, quando o Carnaval se faz vibrar, seja pelo balanço dos corpos ou pela elevação das ondas sonoras, alguém descansava enquanto um ou outro folião ainda caminhava apressado, segurando parte da fantasia que levaria para a avenida. Sábado de Carnaval na cidade, quando o Centro ferve e a passarela pulsa naquele dia que é o cerne de sua existência. Florianópolis coloca, pois, uma máscara e transforma o calor do verão em motivo de alegria e êxtase.

Ainda que meus anos não sejam muitos, como são os dos meus mestres e mestras, também posso dizer que já tive “meus dias de Carnaval”, idos e vividos com mais intensidade do que agora. As brincadeiras de rua em Canasvieiras, no tempo da efervescência gringa. Seguindo o trio elétrico, ou uma caixa de som qualquer, tanto na Lagoa da Conceição quanto no Centro da Ilha e, até mesmo, no Kobrasol da vizinha São José. O que me pesa hoje não é a desculpa da idade, mas sim uma quase ressaca de uma festa grande demais para mim.

Mesmo deitado, não muito longe da Praça XV de Novembro, o descanso não é interrompido por nada. Não há tamborim, cuíca ou pandeiro capaz de provocar outra reação que não a trégua de si mesmo. Ele passaria despercebido, não fosse uma ligeira simpatia de relance, motivo de uma crônica de jornal, dessas que se confundem com contos, desses que aumentamos um ponto ou dois.

Se o Carnaval de Florianópolis mudou e, quiçá, continua a mudar, tão normal é a sensação nostálgica que esse fenômeno provoca. E, assim, para uns as lembranças dos carros de mutação, para outros memórias de pessoas que já nos deixaram e que, não por acaso, também se esbaldavam nas festas do Mercado Público e de outros tantos lugares à beira mar – porque os aterros ainda são adolescentes procurando uma razão de ser nesta Ilha.

Quando o repouso chega ao fim, aquele mesmo homem de barba cor de palha, um jeito assim meio boêmio / meio Machado de Assis, soergue o corpo um bocado dolorido e seu caminho vai se perder desta narrativa nalguma esquina da Felipe Schmidt, não sem antes deixar uma impressão de cumplicidade, uma felicidade íntima e sem explicação, razão mor destas mal traçadas.

Catastrófico tudo

Entre mortos e feridos, de concreto sobram apenas as paredes que sustentam o caos e a miséria. Se nem tudo é engraçado e se não podemos nos dar ao luxo (qual Balzac teria feito) em chamar a realidade de “a comédia humana”, preferimos um caminho mais sensato, coerente e contextualizado. Um dos males da mídia – além de ter se tornado multimídia – está na exploração de superfícies que não lhe dizem respeito. E é o que acontece, também e novamente, com esta tragédia que ocorreu na cidade de Santa Maria (RS), no último domingo, 27/12/2013.

Deus, a ciência ou outro ponto de vista teve alguma influência sobre estes acontecimentos, pois permitiu a todos nós o direito das múltiplas possibilidades. Há, na mesma medida, uma enorme e esplendorosa capacidade para sermos sábios ou burros. Olhando pela janela, ou lendo um jornal (ou um blog) parece que a burrice é uma possibilidade mais fácil, porque requer menos esforço, apesar do alto custo que sempre aparece a posteriori. Inescapável asneira se dá na mídia ao cogitar ser um poder – o quarto, dizem uns mais abobados – que lhes escapa desde a sua origem. Mas é tênue a linha entre a justiça e a opinião. Dotados somos todos de opinar, já a competência de julgar escapa-nos em grande escala: do repórter que pergunta como a mãe que perdeu a filha está se sentindo ao juiz do Supremo que entende a lei à maneira que lhe convém.

Em tempos de guerra, morrem os novos. Em tempos de paz, os velhos. A guerra travada na boate Kiss em Santa Maria não contou com a presença de fuzis ou soldados. Mas como num exército, a maioria dos presentes era jovem. Numa contagem de mortos que parece não estancar (mais de 230 pessoas até o momento em que este texto era escrito) está quantificada o custo de uma guerra que acontece com a mídia, e não apesar dela. Jornais impressos ou virtuais, programas de rádio ou de televisão expõe as falhas que levaram ao incêndio acidental.

“Tragédia anunciada”, pregam os especialistas

Um sinalizador é apontado como o estopim, mas os problemas como que existiam desde sempre. E este é o ponto cego, seja para a política, para a polícia ou para a imprensa. As leis que não se cumprem, qual o alvará negado que deveria ter impedido a boate de funcionar, arrastam consigo a distopia presente do “catastrófico tudo”. Nem adianta correr ou chorar, porque as tragédias estão anunciadas muito antes das previsões que Nostradamus viu em sua bacia.

A boate Kiss (Beijo, em inglês) é o cenário dessa destruição definitiva. O julgamento final, como diz a Bíblia (religião e punição) ou como o James Cameron indicou em O Exterminador do Futuro 1 e 2 (tecnologia e auto-aniquilação). O Beijo da morte não poderia ter escolhido palco mais trágico: uma festa reunindo universitários e outros jovens em busca diversão. Mas o domingo também era um dia do catastrófico tudo. Diversão versus segurança. Paz versus Guerra.

A absolvição, como em outras tragédias deste porte, não virá de modo reconfortante. A justiça não restitui determinadas perdas – equação visível na catástrofe das vítimas no trânsito, dos violentados em roubos, sequestros, espancamentos, das mortes em conflitos armados, dos que padecem de fome, doença… é este catastrófico tudo invisível para uma imprensa que não se cansa de dizer, escrever, noticiar mais do mesmo.

 > São José/SC, 28/01/2013.

Depois do começo

Sinceramente, a ideia do mundo terminar me parece coisa de preguiçoso conservador, ou ainda fruto das mentes romântico-trágicas quando a relação se defaz. “É o fim do mundo”, diz a pessoa enamorada. Vanguardistas jamais se prenderiam em pensamento lineares do tipo “mudar, para quê? tudo vai acabar mesmo!”. E também aqueles que vivem a plenitude do amor aposentam por completo a noção do fim, pois o amor foi feito para ser eterno.

Aquelas cenas imaginadas nos livros ou filmes de ficção científica com destruições avassaladoras são meros pretextos dos niilistas para eximir-se de responsabilidades, sejam quais forem. Jogar um papel de bala no chão ou devastar uma nação, tudo pode ser motivo para não se fazer nada. Assim, a negação da existência também é ela mesma uma negação de si mesma, porque invalida quaisquer conceitos.

Do apocalipse bíblico aos momentos-chave, como as viradas dos milênios ou o ano-final 2012 do calendário maia, o que se espera é muito mais que julgamento, punição ou salvação. Mesmo as teorias dos universos e mundos paralelos, quando o tempo sempre existiu e acontece do início ao fim em todos os momentos, sincretizam visões antagônicas que invalidam as opiniões reacionárias.

Revolucionários de toda sorte compreendem as diferenças entre as espécies na unidade absoluta da natureza. Em mentes não estagnadas a extinção da Terra é tão somente um estalo sem som no vácuo da Via Láctea, mas também é uma herança do que somos e do quanto contribuímos para que os dias finais fossem melhores para os nossos iguais. Nas noites urbanas ou rurais, quando o sentimento de finitude tende a aumentar, as interpretações são cada vez mais divertidas porque nada explicam sobre como será o amanhã, mas trazem à tona o prazer da aventura do descobrimento.

Quando caminho no Centro da Ilha, entre os casarios do passado e as construções exageradas do crescimento vertical, uma indagação simples e simpática me aparece como a dizer “que vai ser de tudo isso”? Não que o auto-questionamento me incomode. Porém, receio que os dias ilhéus têm sido cada vez menos prazerosos porque o danado do mal chamado progresso fez das suas ao desmontar o coração da cidade. E, sem Miramar, sem o mar, sem amar, esses que caminham na Rua João Pinto, também conhecida como a Rua dos Sebos, chegam a aceitar a ideia do fim.

Uma melodia suave sai de um piano jazzístico e, quase depois do começo, transforma-se num agitado rock’n’roll, feito uma fábula sofrendo de bipolaridade. Quem escutar aquela música, se não for preguiçoso ou conservador, vai perceber que o mundo é só mudanças e mudará também.

Apocalipse

De alguma forma, os Maias estavam certos. Este é mesmo o ano do fim do mundo. Mas será um fim positivo, daqueles que recomeçam feito a Fênix mitológica. Uma equipe do SARCÁSTiCOcomBR voltou no tempo e conversou com um antigo habitante deste continente americano, alguém que na sua época  deveria ser o equivalente de um oficial de justiça na cultura maia, e o resultado deste encontro você confere na entrevista abaixo, já transcrita para o português-brasileiro com a a ajuda de um pessoal que traduz legenda de filme baixado na internet.

Equipe Sarcástica: A primeira questão que todos querem saber é como vocês chegaram nesta data? O fato de fevereiro ter 29 dias a cada quatro anos não pode adiar o fim do mundo em umas duas ou três semanas?

Oficial de Justiça Maia: Isso é uma questão ancestral, algo mais antigo que o mundo e passado de geração para geração. Além do quê, tudo o que o chefe dizia era a verdade e ninguém gostava de sofrer castigos em Teotihuacan.

ES: Entendo, mais ou menos como era na época da Ditadura Militar. Só que os militares eusavam pau-de-arara. Desculpe, vamos voltar a falar de vocês. O que exatamente é este “fim do mundo” segundo a cultura maia? Vai sobrar alguma coisa?

OFM: Claro que sim. Se bem que nós acreditávamos que em 2012 os Maias dominariam o mundo e pelo que você me disse antes de começar a entrevista, só vão sobrar ruínas da nossa civilização. E isso é muito triste. Mesmo assim, posso te garantir que sobrarão muitos animais e insetos. Não sabemos ao certo o futuro de comunicadores, homens da lei e políticos, mas é provável que sejam as profissões com as maiores baixas.

ES: Por que estes profissionais em especial?

OFM: É uma questão de seleção natural. O fim do mundo é uma oportunidade rara que temos a cada muitos e muitos séculos. Algumas coisas devem ser extirpadas ou levadas quase à extinção para que o recomeço seja mais democrático.

ES: Não sabia que vocês acreditavam em democracia.

OFM: Acreditamos; o que não quer dizer que ela funcione.

ES: E para terminar, como devemos nos proteger?

OFM: Não posso garantir que as coisas saiam com precisão, pois nem mesmo a previsão do tempo é exata mesmo no seu tempo. Mas seria bom ir para um lugar bem alto, de preferência com estofamento de couro. Também é importante levar geleia de uva e um espremedor de suco, o que pode garantir a sobrevivência por pelo menos uns dois anos. E protetor solar, é claro, pois Quetzalcóatl vai ficar muito furioso por estes dias, o que pode fazer mal para a pele.