Baba elétrica

Seguindo o evangelho dos tragicômicos, a baba elétrica amanheceu completamente lobotomizada. Mas ela estava bem, obrigada. No cantinho da boca, como era seu hábito. Desnuda de ideologias, inadvertidamente efetivou seus passeios diários, tão tradicionais noutros tempos mais brandos, quando a paz poderia ser ouvida a milhas e milhas de distância. A baba elétrica é um ser divino – supremo como só podemos dizer de algumas entidades poucas, dessas que não se misturam com politicagens baratas. Alheia a tudo, mas longe de ser niilista, o que se lhe parece honesto já não tem mais a ver com opiniões ou impressões de mundo. Danem-se todos os versos e versões deste exemplo absurdo da experiência ao qual chamamos de contemporaneidade. Seguindo o caminho da opacidade é que chegamos à transparência e a baba elétrica sabe dos desafios que há de enfrentar, mas também não dá a mínima. O que embrulha o intestino dos fracos é justamente aquilo de que se alimenta esta musa pernóstica. Em seu estado líquido, tudo parece ser igualmente odioso e oleoso, como um comercial de produtos de beleza. Em todos os continentes, as pessoas insistem em fazer da baba elétrica um movimento necessário – como se os motivos fossem suficientes para acordar, dormir, acordar e dormir novamente. Enganam-se os animais inteligentes que procuram estabelecer um gerenciamento ordenado do multiverso conhecido. Ela ri das complexidades fictícias e debocha ainda mais das construções sociais. Seu estilo está mais para o avesso, ainda que tenha uma sincera atração pelo trivial. Ao conhecer os maneirismos de um mundo maroto, a baba elétrica mergulha na coletividade, armada até o mais fundo de sua existência. E existe apenas. Heróis enrustidos, autoridades pífias e outros maus elementos lhe agradam enquanto sombras do cotidiano – novamente surge o trivial que lhe escorre entre as unhas e lhe perturba a atenção. Seu denominador comum não é muito dessemelhante de qualquer outra história tingida de preto na página de um livro. Menos importante que o ritmo da aventura é a vontade que se tem ao percorrê-la. A baba elétrica deixou para trás todas as dúvidas e se algo ficou de importante foi apenas a ausência de uniformidade. Zelosa que só ela, traveste-se de uma vírgula insidiosa e suga todos os sorrisinhos sacanas que lhe acenam na falsidade das horas. A baba elétrica está logo ali, escondida em cada gota de sentimento que extravasa pelo suor e, como tal fruto do dissabor, revolta-se girando em círculos.

Deixe um Comentário

0 Comentários.

Deixe um Comentário