Imitação de Universo (uma introdução à Epopéia do Reizinho Reinento)

O COMEÇO

Não foi uma decepção quando aquele universo teve sua aurora porque não havia ninguém para reclamar. O despertar fulgurante foi um desastre sem testemunhas. Caos, aniquilação, matéria explodindo e muita, mais muita poeira. Asmáticos, se existissem à época, estariam perdidos. Ainda assim, TUDO começou. Anos mais tarde – modo de falar, claro, porque ninguém sabe ao certo quanto tempo se passou –, uma raça dita humana denominaria aquele evento fundador. Após muita controvérsia, embriaguez desnecessária e tapas nas caras, chegaram num acordo não muito convincente. O episódio ganhou então a alcunha de Big Bank, num estrangeirismo típico de quem ainda se vê colônia. E, não sem outro motivo, por um grande banco privado ser o patrocinador principal daquela pesquisa científica.

A DEMORA

Para que TUDO funcionasse demorou um bocado. Muitos garantem que ainda não estamos nessa fase, principalmente na questão do atendimento ao público. O Big Bank, no entanto, deixou marcas indeléveis na vastidão do cosmo. Soltos, aqui e acolá, singularidades que fariam qualquer manifestação plural guardar seus cartazes e ir de mansinho para casa. Buracos Negros são pequenos lembretes da natureza: “E se me irritarem, olha só o que eu faço!”. O universo tem um humor bastante peculiar. A primeira experiência com a vida se deu no acaso; uma experiência furtiva que combinou a proximidade com uma estrela brilhante, mantendo-se na exata distância de um bem estar consigo mesma. As partículas se juntaram, tomando um formato oval, quase oblongo diriam uns mais poéticos. O planeta deu-se por satisfeito no tamanho e tratou de se resfriar. Água jorrando e num estalar de dedos (se dedos houvesse) a vida brotou. Primeiro, unicelular e errática. Depois, gigantesca e volumosa como um dinossauro. Outras espécies apareceram. Entre elas, a girafa que herdou um pescoço desnecessário. Há também a barata, que parece uma metáfora sobre a importância dos miúdos. A humanidade surgiu ali pelo meio, é bom que se fale para que ninguém fique fazendo birra depois.

O TEMPO

Com a humanidade, TUDO ficou em segundo plano. O TEMPO tomou o lugar principal nas rodas de conversa ao redor de fogueiras paleolíticas. A descoberta do fogo trouxe conforto e inconvenientes. A carne poderia ser assada e as noites menos frias; em contraponto, quem seria o responsável por trazer a lenha e como dormir com a luz crepitando? Qual o quê! Aquele ser novato que teimava em caminhar com apenas dois membros foi muito além do que o próprio Big Bank previra. Criou objetos úteis como a faca e a roda, e forjou conceitos que ainda não passaram pelo teste do tempo, como o TEMPO-ele-próprio. Algumas ideias parecem boas por princípio, mas tendem a ser substituídas com o passar das estações. O TEMPO bateu forte na inteligência dos humanos que decidiram criar alguma forma de imortalidade. Daí, o exagero soou brando, afagando uma alma carente de afeto. Logo, surgiu a exploração de uns sobre outros, do oportunista sobre o desavisado, do forte sobre o fraco. E obras colossais tiveram seus dias de glória. Pirâmides aqui e acolá; estátuas de deuses e muralhas quilométricas; palcos de arte e de lutas mortais. Claro, tudo isso teve um preço alto – e a desvalorização das moedas não ajudou em nada.

A CHEGADA

Porque toda narrativa parte de um presente, temos também o nosso. Eis o momento d’A CHEGADA, porque aqui chegamos. Ainda é um período obscuro. Poderíamos chamá-lo de Era das Trevas ou Modernidade; de Medievalismo ou de Contemporâneo. Tanto faz o nome, porque A CHEGADA não é para principiantes. Enquanto a política e a economia determinam o sucesso das nações, um bêbado se embriaga numa taverna qualquer sem dar por isso. Mas o bêbado não é a estrela principal nessa narrativa, então deixá-lo-emos de lado. A onda conservadora chegou com o jeitão desengonçado de um Tsunami. Todos os críticos e analistas sabem que tal modelo também chegará ao fim, mas o estrago projetado pode não ter precedentes. Se vaidoso fosse, o Big Bank ficaria orgulhoso – ou, ao menos, o banco que o batizou. Há uma sensação de nostalgia no ar, um clima de déjà vu nada agradável porque remonta aos dias de idiotia. A opressão vem comendo pelas beiradas, como quem engole a sopa recém saída do caldeirão. Bruxas e magos temem pelos próximos atos institucionais. A apreensão domina a pauta do dia desde que a prensa de tipos móveis surgiu faz algum tempo. Por nosso lado, temos essa infiltração na tecnologia e vamos narrando a história com qualquer resquício de liberdade que encontramos pelo caminho. O sorriso no rosto não é de tristeza. É sarcasmo.

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