Quase uma ressaca

Ali perto do agito das ruas, quando o Carnaval se faz vibrar, seja pelo balanço dos corpos ou pela elevação das ondas sonoras, alguém descansava enquanto um ou outro folião ainda caminhava apressado, segurando parte da fantasia que levaria para a avenida. Sábado de Carnaval na cidade, quando o Centro ferve e a passarela pulsa naquele dia que é o cerne de sua existência. Florianópolis coloca, pois, uma máscara e transforma o calor do verão em motivo de alegria e êxtase.

Ainda que meus anos não sejam muitos, como são os dos meus mestres e mestras, também posso dizer que já tive “meus dias de Carnaval”, idos e vividos com mais intensidade do que agora. As brincadeiras de rua em Canasvieiras, no tempo da efervescência gringa. Seguindo o trio elétrico, ou uma caixa de som qualquer, tanto na Lagoa da Conceição quanto no Centro da Ilha e, até mesmo, no Kobrasol da vizinha São José. O que me pesa hoje não é a desculpa da idade, mas sim uma quase ressaca de uma festa grande demais para mim.

Mesmo deitado, não muito longe da Praça XV de Novembro, o descanso não é interrompido por nada. Não há tamborim, cuíca ou pandeiro capaz de provocar outra reação que não a trégua de si mesmo. Ele passaria despercebido, não fosse uma ligeira simpatia de relance, motivo de uma crônica de jornal, dessas que se confundem com contos, desses que aumentamos um ponto ou dois.

Se o Carnaval de Florianópolis mudou e, quiçá, continua a mudar, tão normal é a sensação nostálgica que esse fenômeno provoca. E, assim, para uns as lembranças dos carros de mutação, para outros memórias de pessoas que já nos deixaram e que, não por acaso, também se esbaldavam nas festas do Mercado Público e de outros tantos lugares à beira mar – porque os aterros ainda são adolescentes procurando uma razão de ser nesta Ilha.

Quando o repouso chega ao fim, aquele mesmo homem de barba cor de palha, um jeito assim meio boêmio / meio Machado de Assis, soergue o corpo um bocado dolorido e seu caminho vai se perder desta narrativa nalguma esquina da Felipe Schmidt, não sem antes deixar uma impressão de cumplicidade, uma felicidade íntima e sem explicação, razão mor destas mal traçadas.

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1 Comentários.

  1. A espera pela nossa salvação é mais larga quando existe o medo de saltar. As minhas portas eu quero abertas porque eu não sei esperar, quero vê-las escancaradas, batendo com o vento que entra pelas janelas da sala, e fazendo um barulho imenso que não vai me deixar dormir essa noite. Nada de fim. O horizonte é meu. Mesmo que nada funcione eu ficarei de pé,de queixo erguido…pois perder com classe e vencer com OUSADIA é para poucos,e não para todos os que querem!!!Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania…depende de quando e como você me vê passar…. …É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os desejos não precisam da razão, nem os sentimentos, de motivos…É com o sorriso que se conquista o que se deseja e se derruba o indesejável.

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