Arquivos de Tags: Política

A pantomima política rouba em cena

O corpo serve de suporte para a pantomima. Sem meias palavras, tampouco palavras inteiras. Gestos. Mímica. Reprodução de articulações comuns, facilmente assimiladas. Quando o discurso não se sustenta, a performance corporal chama a atenção para si! A política e a história acompanham com algum espanto estes mal chamados arautos da pantomima. Gente esdrúxula que, de alguma forma, obtém o poder através de portas abertas no caminho da ignorância. Winston Churchill, primeiro ministro inglês durante a Segunda Grande Guerra, dominava o verbo como poucos no seu meio de nobres. “Sangue, suor e lágrimas”, expressão popularizada no cotidiano, origina-se do primeiro discurso de Churchill ao assumir o comando do parlamento no Reino Unido. Vislumbrando dias difíceis pela frente, naquele 13 de maio de 1940, Churchill afirmou: “Não tenho nada a oferecer além de sangue, trabalho, lágrimas e suor”. No front oposto, Hitler beirava a mediocridade no manejar das palavras. Com a retórica em níveis críticos, o ditador nazista tinha de fazer estripulias com as mãos e o corpo para trazer os olhares para si. E todo mundo sabe que os exaltados raramente têm razão. Contam mil vezes uma mentira para si mesmos com o intento de dar alguma legitimidade à falta de argumentos inteligentes. Em 18 de março de 1997, o ex-presidente da República, Fernando Collor de Mello daria uma de suas mais reproduzidas entrevistas ao negar acusações de possíveis crimes. A repórter Sônia Bridi inicia a primeira pergunta: “O senhor está sendo julgado pela Receita Federal por sonegação fiscal…”. Collor a interrompe com uma frase que entraria em definitivo na crônica política brasileira: “Eu não estou sendo julgado pela Receita Federal. Isso é outra mentira. Não estou sendo julgado coisa nenhuma. E não existe processo legal formado. Isso é uma mentira, uma pantomima, uma patuscada”. O vocabulário espalhafatoso de Collor o remete a outro ex-presidente. Jânio Quadros, mais um daqueles presidentes eleitos sob a bandeira de varrer a corrupção, valia-se de seu conhecimento científico na forma de se expressar. Incluímos aqui a clássica frase “Bebo-o pois líquido é, se sólido fosse, comê-lo-ia”, num uso da mesóclise imitado tardiamente por Michel Temer. Em seu discurso de posse, Temer diria que as reformas de seu governo não modificariam os direitos adquiridos pelos brasileiros. E completaria: “Quando menos fosse, sê-lo-ia pela minha formação democrática e pela minha formação jurídica”. Daí chegamos ao atual presidente brasileiro, político de longa presença na Câmara dos Deputados, sem nenhum discurso memorável, celebrado em anos recentes pelos comentários preconceituosos e ofensivos, inclusive tendo de responder à justiça nalguma oportunidade. Se a retórica lhe escapa, o que sobra? Sim, a pantomima. Com a realidade cada vez mais radicalizada na concisão, o gesto tosco, simplório e inconsequente subiu a rampa do Planalto para o deleite de admiradores devotos. A imagem bruta se transforma em meme da internet – uma espécie de síntese da disrupção social que se grudou às novas mídias. Neste 7 de Setembro de 2020, durante uma pandemia mundial, o Brasil se apresenta como uma das piores nações na administração da crise. Os mortos ultrapassam as centenas de milhares e a população não identifica em seu principal governante o compromisso para com a proteção social. A pantomima do presidente lhe ampara na falta de conhecimento sobre quaisquer assuntos relevantes exigidos pelo cargo. Dia da Independência do Brasil: contra todas as indicações dos agentes de saúde, o presidente desfilou sem máscara no Rolls Royce presidencial, acompanhado de crianças, algumas delas igualmente desprotegidas na face. Depois, como de hábito, provocou aglomeração de pessoas ao cumprimentá-las, também desrespeitando as diretrizes de distanciamento social para evitar a proliferação do vírus da Covid-19. Eis o desfecho da pantomima diária: um espetáculo ruim encenado na ausência de talento do protagonista. Uns poucos ainda aplaudem.

Projeto de país

Brasil, 2020. Que projeto de país, que nada. Disrupção. Disritmia. Um pouco de nada e outro tanto de tudo. Pandemia pede passagem. O presidente qual agente do caos. Nem por hoje, tampouco por amanhã. E o que há de sobrar nesse mar de infâmia? Naufragados, degredados, apóstatas sem eira nem beira! Nenhum estado pode dar conta de tanta religião. Fé demais não cheira bem, como o cacófato que exala a falta de pudores. Seres pudorentos no arremedo de um falso Messias! Tamanha ablução; cem razões de ser. Mil e uma utilidades. Entre corrupções e rachadinhas, a fila anda. Aleatória, qual o voo de uma borboleta bêbada. Extrema, feito o bater de asas do beija-flor. A erva daninha machuca a si mesma. Que malícia! Quanta milícia! Tem quem sorva do cálice sagrado, mesmo sem saber se é cachaça ou refrigerante de cola. Coca-Cola é isso aí. Um golinho para o santo e outro para o anjo caído na terra do sol. Abaixo do Equador, todos sorrimos amarelo apesar do creme dental. Satisfação em substâncias que se untam antes de adentrar ao forno. Temperatura? Ok! Duração? Confirmada. Vai dourar as bordas ou torrar tudo de uma só vez? Ninguém sabe ao certo. Há aqueles que recomendam medicamentos via retal. Outros, banhos de sal. Aos negacionistas, qualquer remédio vendido na esquina. Até mesmo hidroxocloroquina. Numa ou noutra etapa do tratamento, o efeito placebo de pura magia. Parecido com o capitalismo financeiro: capital fictício de verdade que se reproduz na bruxaria de uma agência bancária. Dinheiro que gera dinheiro sem mercadoria. Comes e bebes. Nos edifícios mais altos, drinks com champanhe importado. As exportações, afinal, sempre deram conta de manter a colônia em dia. Consumo de insumos. Ao norte e ao oeste, veredas abertas no coração de uma floresta em chamas. Bombeiros que se armam. Bombinhas que se amam. A educação no final da festa dentro de uma sala de aula vazia. Realocação de recursos. Tudo por causa da família, da propriedade privada, da moral e dos bons costumes. Cidadãos de bens. De muitos bens, imóveis e aplicações financeiras. Alguém pode me dizer qual o Dow Jones Industrial Average? Exploradas, as crianças não têm por onde! Sujeitinho de segunda classe esperando uma bolsa qualquer, uma renda mínima que seja. A sociedade se penteia no espelho quebrado. Projeto de país? A questão fundamental continua sem resposta.

Obscenidades Catarinenses

Noite quente, casa lotada. A luz vai trocando de lugar com a fumaça, sinal de que em poucos minutos o show começa. Com suas longas orelhas de coelho, ela rebola, grita, canta, ri e bebe ao som de música eletrônica. Ela desce do palco, conversa com todos os presentes em um inglês tão apertado quanto as suas vestes fetichistas.

E assim segue o espetáculo Kassandra, produzido pela La Vaca Productora de Arte, com a atriz Milena Moraes e direção de Renato Turnes. A temporada de estreia foi financiada pelo Prêmio Myriam Muniz, da Fundação Nacional das Artes (FUNARTE) de Teatro. Até então inédito no Brasil, o texto de Kassandra é do dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco, que escreveu a peça propositadamente em um inglês precário para representar um idioma de sobrevivência. Outra exigência do autor é a de ser encenada em espaços não-convencionais. Em Florianópolis, Kassandra ganhou vida no Bokarra Club, a mais conhecida casa de “diversão adulta” da cidade.

O local de apresentação nunca foi um problema, até uma gravação de uma festa promovida pela prefeitura de Palhoça no Dia Internacional da Mulher com a participação de um gogo boy aparecer na mídia. Este fato levou o Governo Catarinense a condicionar a liberação dos recursos do Funcultural para a Maratona Cultural à mudança de local de apresentação de Kassandra, já que o espetáculo havia sido convidado a integrar a programação do evento.

O que o ânus tem a ver com as calças, ou melhor, com as orelhas? Só a mentalidade exótica dos governantes catarinenses e dos moralistas de plantão pode fornecer algum tipo de pista.

Além da decisão dos produtores de Kassandra de cancelar o espetáculo, o veto do governo catarinense provocou várias retiradas de outros espetáculos da programação da Maratona Cultural por parte dos produtores em solidariedade e protesto aos rumos da política cultural no Estado. Também se reproduzem a cada dia as manifestações de repúdio, como da Federação Catarinense de Teatro (Fecate), do Centro de Artes da Udesc e o do Fórum Setorial de Teatro.

Além da sociedade civil organizada, outras manifestações de protesto partem de indivíduos conectados à internet, como a “Maratona Cultural Livre”, uma plataforma colaborativa de mapeamento de atividades culturais independentes e a “Ocupação Coelho de Troia”, na qual os artistas, produtores e público são convocados a aderir ao movimento de protesto comparecendo aos eventos utilizando uma máscara de coelho, em alusão à personagem Kassandra.

O espetáculo Kassandra é inspirado na personagem mítica da Guerra de Troia: Uma princesa com o dom da vidência que é considerada louca e não consegue convencer seu povo do massacre iminente. Ao que parece, mais uma vez Kassandra encontrou seu trágico destino na ignorância dos homens.

Atualização

Cobertura in loco (pelo celular) da Operação Coelho de Tróia durante a peça Anti-Nelson Rodrigues, no Teatro da Ubro no dia 23/03/2013: http://mobile.skarnio.tv/tag/coelho-de-troia Registro em vídeo do manifesto: http://vimeo.com/62557028.

Lá no estrangeiro

Não é o caso de não me interessar por política internacional. Pelo contrário. A questão é unicamente de perspectiva, colocando cada espaçonave no seu planeta natal, porque de alienígenas já temos em demasia no cinema. Não duvido que um adolescente, aquele típico rapazote que curte esportes, baladas e outras diversões, saiba mais nomes de presidentes dos Estados Unidos do que do Brasil. Do Sarney para trás quase ninguém lembra, tirando o Juscelino, o Getúlio e, talvez, o Floriano Peixoto – mas só porque Florianópolis deve seu nome ao marechal das mãos de ferro. É só comparar os destaques na mídia que obtiveram Lincoln, de Steven Spielberg, e Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto.

Mas lá no estrangeiro as coisas não são com aqui. Se as percepções sociais mudam de estado para estado, mesmo de cidade para cidade, imaginem de um país para o outro! Por certo que muitos dos problemas são os mesmos, como o déficit educacional, a inoperância do sistema de saúde, as infraestruturas que distanciam ainda mais os ricos dos pobres. Ainda assim, estamos juntos, como num casamento aberto, unidos por nossas semelhanças e diferenças. Se as bombas atômicas explodirem, não vai adiantar muito ter dinheiro ou notas promissórias; isso que é matrimônio! Por isso nos preocupamos sempre com tudo.

O caso que me aborrece é o daquele sujeito que reclama das cobranças do FMI, mas não aceita que o vizinho venha lhe pedir para fazer menos barulho. Esse cidadão é mesmo um pulha, porque logo que soube da morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, veio com suas teorias e opiniões sobre direita/esquerda, a América Latina, e o mundo contemporâneo. E enquanto ele fala, entre um gole e outro de cerveja, os outros presentes no botequim continuam jogando sinuca, como se fosse possível colocar a bola preta da política internacional no buraco do canto.

chavez

Chávez deixou a franquia presidencial no dia 05/03/2013, tendo a ocupado desde o dia 02/02/1999. Com sua morte em Caracas, aos 58 anos, pouco ou nada mudará na vida do pulha barulhento – salvo se este promover uma festa bolivariana para homenagear Chávez até as altas horas da madrugada, para azar de seu vizinho. Porque todos entendem muito mais da vida dos outros do que das suas próprias. “O gramado do vizinho venezuelano é mais bonito que o meu”, eles dizem. E citam também Cuba enquanto único foco de resistência nesse planeta globalizado: abaixo as oligarquias!

E há tamanha bobagem espalhada nesses discursos de frases feitas que o convite ao riso é inevitável. Brasil, Venezuela, Cuba, Estados Unidos; não importa o país se qualquer um acreditar que tomar partido é fechar os olhos para os desvios de conduta internos. A favor de uma revolução que só existe na ficção da má literatura, aqueles complacentes partidários apoiam regimes de exceção, ditaduras travestidas de democracias, ações de governos que não representam as obrigações do Estado, e por aí vai. Quem aceita isso com devoção é mau caráter. O tipo de pessoa que deseja salvar a humanidade, mas não dá bola para o ser humano ao lado, pedindo por socorro. E é realmente lamentável que esta postura seja tão bem distribuída entre a esquerda, a direita e todo o resto.

O adeus de Chávez acontece por que a morte é tão inevitável quanto rir de uma piada. Mal comparando, podemos dizer que sua existência não poderia ter sido diferente de um romance sem final feliz. O presidente-comandante Hugo Chávez sobreviveu aos golpes políticos, mas perdeu a briga para o câncer. E esta é uma história tão comum entre nós que pode ser entendida como outra oportunidade para conhecer a si mesmo, atendendo o apelo da pitonisa de Delfos – afinal, já na Grécia de outrora alguns percebiam que lá do estrangeiro não virão apenas boas notícias.

VatiLeaks

papa_vazandoSerá que foi o vazamento dos documentos do Vaticano que fez o Papa vazar?
Ou é só mais um trocadilho infame?