A saga do Jim Jones tropical e os seus dissidentes

Não tenho nenhum depoimento sofrido sobre o Fora do Eixo. Não tenho ilusões perdidas, expectativas frustradas, tampouco temor em jogar fora a água da bacia junto com o bebê.

Não tenho nada disso porque nunca nutri confiança em um projeto político de poder travestido de vanguarda. Salvo por um breve período, após as ressalvas de um amigo cujo histórico de atuação no movimento cultural precedia a atuação do FdE, um coletivo, que em sua visão, tinha um “potencial muito forte para o fortalecimento de políticas públicas no Brasil”.

Em função desta perspetiva, fui no 4º Congresso Fora do Eixo ver de perto do que se tratava o Partido da Cultura” (Pcult), uma proposta para destacar as bandeiras do setor cultural através de articulações suprapartidárias pelo país. Era 2011, ano pré-eleitoral.

Após uma empolgação inicial em ver aquela garotada toda se movimentando em função de bandeiras bacanas como a cultura livre e a organização em rede, fui notando que as coisas não aconteciam exatamente como pareciam. Logo na abertura do evento, que contou com a presença no palco de uns seis ou nove jovens que subiram e desceram do mesmo jeito: Calados. Após 45 minutos de um discurso repleto de frases de efeitos e bravatas de Pablo Capilé, idealizador e gestor do coletivo.

Até então, minha experiência mais direta com o Fora do Eixo foi no UFSCTOCK daquele mesmo ano, em Florianópolis, no qual me convidaram a participar de uma mesa sobre Cultura Digital. No fim do debate, cada participante foi questionado sobre o que achava do trabalho do Coletivo, no que respondi “Acho interessante. É um movimento social que mistura ativismo com técnicas de franchising”. Só me dei conta do caráter “afrontoso” da frase quando me depararei tanto com as reações dos membros do FdE quanto dos meus colegas de mesa. De fato, naquele momento, era uma análise crua e simples que me veio à mente.

Mal sabia eu que a minha impressão se confirmaria tão cedo, meses depois, no Congresso FdE, em São Paulo. Perdi a conta do número de vezes que ouvi declarações como “nós eramos o coletivo das Margaridas, da cidade das Batatinhas, hoje somos a Casa FdE Batatinhas”. Após outros exemplos de pasteurização de iniciativas, cheguei a conclusão de que o FdE era apenas mais um projeto de poder em si mesmo quando ouvi repetidas vezes que o “Partido da Cultura poderia, um dia, ter candidatos próprios nas próximas eleições”.

Meses depois, aquele mesmo amigo que me instigou a conhecer o FdE teve sérios problemas de divergência com a cúpula do coletivo, tendo que se desligar de uma maneira abrupta. Com o afastamento dele e a minha experiência no congresso, foi-se a única tentativa de crédito ao grupo.

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Um dia, eles batem na sua porta: As Testemunhas de Capilé.

 

O X da questão

Projetos de poder nascem todos os dias. O problema do FdE é a demagogia.

Demagogia esta que atrai muita gente boa, identificada com dinâmicas como o colaborativismo, ação em rede e a cultura digital. E é neste ponto que reside o maior perigo de um projeto falacioso: a frustração de centenas de jovens com conceitos e dinâmicas que foram usados de forma distorcida.

O Fora do Eixo não é uma rede horizontal. Não existe núcleo-duro e personalismo em rede horizontal. O FdE é um coletivo com uma forte estrutura hierárquica que manipula os seus integrantes, que, em sua maioria, pertencem à faixas etárias suscetíveis à influências externas. Além destas características, o FdE usa de coerção psicológica para inibir os membros dissidentes, o que faz com que a sua organização se aproxime mais de uma seita do que de um movimento social.

Para quem circula pelo país e lida com várias outras organizações ligadas à cultura, comunicação e movimentos sociais, não existe muita novidade na onda de relatos e informações que aparecem todos os dias após a entrevista de Pablo Capilé em Bruno Torturra no programa Roda Viva do dia 5 de Agosto por conta da atuação da Mídia Ninja (criada dentro do FdE) nas Jornadas de protestos de Junho no Brasil. O que era até então boato e desabafo amedrontado, ganhou assinatura nas redes sociais.

O fato das pessoas não acharem ruim serem identificadas como escravas, ou partilhar de um projeto de poder de um aparente Tyler Durden (mas que na verdade, não passa de um Edir Macedo hipster), é problema delas.

O problema é obsessão do Fora do Eixo em querer se apresentar como a “nova cultura brasileira” (como eles mesmos se definiram algumas vezes). Não são.

Nenhuma rede, coletivo ou organização será capaz de representar a cultura brasileira em sua totalidade, diversidade e amplitude.

Se não fosse a necessidade constante do FdE em querer ser a “rede das redes” dos movimentos sócio-culturais, provavelmente eu nem me daria ao trabalho de estar escrevendo.

A “Rede das Redes” foi mais uma tentativa de emplacar outra “Marca FdE” nos movimentos culturais. A tal rede seria uma articulação entre todos os movimentos. Para isso estava sendo gestada uma “Embaixada das Redes” (ou coisa parecida) em Brasília. Gerenciada por membros do FdE, é claro.

Após contestar a tal rede em listas de discussão na internet, ganhei uns 100 seguidores em cada mídia social. A maioria com Fora do Eixo no perfil. Acredito que a ideia era começar a dar os nós na rede pelo monitoramento diário de quem a contesta…

 

Mais Samurais Ronins e menos Ninjas Marqueteiros

Como o projeto dentro da Cultura estava encontrando muita gente rancorosa e briguenta, o FdE passou investir na área da comunicação, após as experiências bem sucedidas na Marcha da Liberdade. Assim nasce a “Mídia Minja”, que, mais uma vez, coloca logomarca e roupagem descolada em ações realizadas há anos por militantes pela democratização da comunicação e mídia independente. Como num passe de mágica, “Mídia Ninja” passa a significar “Mídia Alternativa” no debate público.

A Mídia Ninja é apenas mais uma mídia, e não “o paradigma”. Pode ser novidade para os jornalões decrépitos que precisam de rótulos novos, mas, para quem cobre manifestações há anos, não é.

Seria mais coerente para todos, inclusive para a própria base do Fora do Eixo – que acredito sinceramente ter muita gente bem intencionada e disposta a “construir um mundo melhor” – que o coletivo se organizasse como uma grande cooperativa de trabalho, já que nisso, a sua capacidade de articulação é inegável: Reunir uma base de trabalho fiel e fazer um bom marketing em cima.

Ou será que alguém cai ainda nessa história de “Vida FdE”? De que a sua rotina “não se equipara a nada criado na face da terra até então, e, portanto, não é possível adequar tanta novidade aos modelos existentes de organização social”?

Procuro relacionar os acontecimentos políticos mais emergentes sob a perspectiva da crise de representatividade na sociedade. Talvez aspecto mais positivo de toda a questão do Fora do Eixo seja demosntrar, mais uma vez, para a juventude, que ela não precisa de gestores, representantes ou qualquer outro agenciador das suas aspirações. Por mais moderninhos que eles pareçam.

Mais importante do que fazer parte de uma “rede” na qual você não sabe exatamente o que falam em seu nome em gabinetes fechados em Brasília, é se juntar aos seus pares na sua cidade e fazer a cena acontecer nela mesma.

Que a juventude brasileira aproveite o embalo das Jornadas de Junho (o mês que não vai acabar tão cedo) e se desligue cada vez mais de organizações corporativas, partidárias, religiosas e, principalmente, das que misturam tudo.

Meu encontro com Fátima

Você sabe o que Fátima Bernardes sentia quando repetia diversas vezes “é obvio que nós queremos a Copa” e “o movimento não é contra a seleção brasileira” em seu programa matutino do dia 18 de Junho? Eu não sei. Mas pela insistência da apresentadora, desconfio que fosse medo.

Mas medo, mesmo, foi o que os manifestantes massacrados pela polícia de São Paulo sentiram durante os protestos pela redução da tarifa do transporte público na cidade. Medo e revolta. Revolta foi o que fez com o que milhares de pessoas saíssem às ruas de várias cidades do país no dia anterior ao do programa de Fátima, mesmo que toda a mídia brasileira tenha chamado aqueles manifestantes massacrados de “baderneiros” e “vândalos”.

Então foi a vez dos donos das emissoras de TV, Rádios e Jornais sentirem o único medo que são capazes: o de perder dinheiro. Já imaginou o prejuízo que as repercussões negativas de uma série de manifestações cada vez mais numerosas pode causar nas proximidades de arquibancadas de futebol repletas de estrangeiros? Imagine se as pessoas tivessem noção do estrago que um enorme apagão de audiência durante os grandes eventos faria no sistema como um todo?

Era necessário acabar com a baderna logo. Afinal, em poucas semanas, também começará a Jornada Mundial da Juventude Católica no Rio de Janeiro. Mais um evento que, assim como a Copa, leva muito dinheiro público.

O que o Papa vai pensar disso? É amedrontador.

Como se fosse uma deusa

E, qual um passe de mágica, o discurso da maior emissora do país e das suas concorrentes mudou completamente. Dias de caos e destruição se transformaram em “dias históricos, quando as pessoas de bem, vestidas de branco e com a cara pintada lutavam pelos seus direitos”.

O que aconteceu nas últimas semanas só será analisado com o devido distanciamento histórico, mas acredito que a imprensa brasileira ofereceu uma infinidade de casos de estudos para quem quiser se debruçar em pesquisas sobre a manipulação da opinião pública. Inclusive, manipulação que abusou de subterfúgios que ofendem a capacidade de discernimento de qualquer um que esteve na rua nestes dias agitados.

Talvez a maior de todas as deturpações seja o ocultamento às centenas de vaias e palavras de ordem como “O Povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” e até “Pau no cu do Edir Macedo” cada vez que a câmera desta ou daquela emissora chegava perto de uma manifestação. A ponto dos jornalistas terem que fazer o seu trabalho escondendo as logomarcas das emissoras. Estas cenas aconteceram em diversas cidades do país, mas apenas uma foi exibida durante o programa Profissão Repórter, em que o Caco Barcellos era cercado por manifestantes que queriam impedir o seu trabalho, ao mesmo tempo que era protegido por outros.

Em tempo 1: O SARCASTiCOcomBR não concorda com o impedimento do trabalho jornalistico, independente de onde seja publicado ou transmitido.

Do Prozac ao Projac

Em longas análises políticas na TV a cabo, noticiários ou nos tablóides, a imprensa brasileira empenhou-se como nunca em evidenciar a crise de representatividade que a democracia brasileira vive hoje.

A imprensa cobra uma mea-culpa dos políticos. Mas quando esta mesma imprensa, principalmente a televisiva, fará a auto-crítica necessária para honrar as concessões públicas do uso do espectro eletromagnético que ocupa?

O sinal de que as coisas não seria tão fáceis como nos anos 1970 foram as milhares de mensagens indignadas em um tipo de mídia que ainda não está sob os grilhões dos anunciantes ou caciques políticos: a internet. No dia seguinte após se ler, ver e ouvir que “não havia feridos” nas manifestações, dezenas de tumblrs e blogs foram criados com fotos de gente sangrando e cheia de hematomas. A versão de cada cidadã e cidadão era publicada em tempo real. Não era mais possível calar as pessoas ou fingir que elas não existem. Partiu-se para o plano B: direcionar as atenções, dar bandeiras a punhos vazios, oferecer soluções genéricas para quem sofria de disenteria ideológica.

E foi no Fantástico (programa dominical de formação de opinião da classe média) que os placebos ganharam propriedades científicas: o programa afirmou que iria “trazer as respostas das manifestações dos últimos dias”. O show da vida divulgou uma pesquisa encomendada ao IBOPE, na qual as motivações dos protestos variavam da PEC 37 à corrupção. Milagrosamente, a crítica aos meios de comunicação não apareceu em lugar algum.

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Exibição do documentário “Muito Além do cidadão Kane” na UDESC

No dia seguinte, estudantes de Florianópolis organizariam um debate sobre a mídia na Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC). No evento, foi transmitido o documentário “Muito Além do cidadão Kane”. Nem todo mundo acreditou que o país estava dormindo até ontem e resolveu colocar a imprensa na pauta de muitas conversas nas ruas, nas casas e na internet, onde se dá a maior guerra de todas: a da informação. A cada dia, um boato novo surge: “A direita dará o golpe”,  “o dia do basta está chegando”, “a Presidenta fechará a internet” (sendo esse o mais divertido de todos).

Cenas dos próximos capítulos

No fim das contas, a mídia impressa, sempre mais tradicional, ainda precisa vender papel para sobreviver. Talvez por isso, prefira o bom e muito velho “Golpe Comunista”. E em meio ao festival de abobrinhas, boas ideias florescem a cada dia nas redes. A Reforma Política é uma delas. Uma reforma no sistema eleitoral, que pode retirar o poder econômico o controle sobre a vida e a morte de uma república adolescente. Uma reforma que pode obrigar os partidos a conquistar aquilo que perderam faz tempo: a coerência. Uma reforma que pode mexer com muita coisa, inclusive a mídia, já que vai provocar o debate público sobre marco regulatório para as comunicações e um marco civil da internet.

Uma Reforma  Política que pode não ser nem a que está em pauta hoje, nem a que a Presidente está falando. Uma Reforma Política que pode estar sendo escrita nas ruas.

Adivinhe qual será o próximo alvo da mídia?

Em tempo 2:

Um grupo de comunicadores independentes convocou pelas mídias sociais uma Assembleia Popular com o tema “Democracia na Mídia”. Este encontro aconteceu em São Paulo, às 19 horas na Praça Roosevelt, e, principalmente, na internet, já que será transmitido online. No evento, serão abordados aspectos como a concentração financeira da mídia tradicional, além de seu caráter pouco plural e nada diverso. Da mesma forma, serão debatidos temas como o papel da internet na nova mídia, suas oportunidade e limitações de alcance, entre outros assuntos.

Sobre o papel do jornal de papel

Foi publicado no Diário Catarinense deste sábado (22/06/2013) um texto meu sobre a Cultura Digital nas manifestações. Escrevi principalmente sobre o caso do Movimento Passe Livre.

Vou aproveitar a auto-clipagem/promoção pessoal para propor um debate para o povo da comunicação (e afins) de Florianópolis.

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Os momentos de grandes mobilizações sociais são os mais ricos para a reflexão sobre o papel da imprensa na sociedade. Principalmente, em uma época na qual a informação se torna pública pelas próprias fontes em seus perfis nas redes sociais da internet. A mídia televisiva merece um artigo específico, tamanho seu vulto e influência no país. Mas achei oportuno trazer para cá uma conversa que a Fernanda Amaral está tendo comigo e outras pessoas para um livro sobre os caminhos do jornalismo impresso. Antes, preciso confessar que  tenho em minhas mãos o jornal Notícias do Dia de sexta (21/06) e o Diário Catarinense de sábado (22/06). Por várias questões, não tenho o hábito da leitura de jornais. Fico informado sobre o mundo através da  internet, pela televisão (telejornais e programas específicos) e, é claro, acompanhando as mídias sociais.

O principal motivo do distanciamento dos jornais impressos é o tempo. A notícia, mesmo que bruta e sem tratamento nenhum, chega na rede quase instantaneamente. Se não estiver no campo das catástrofes ou relevância para a mídia de massa, pode ir tanto para o rádio quanto para a tv horas depois. Só no dia seguinte é que a notícia ganha a sua versão impressa.

Daí a minha tese, de que, em pouco tempo, literalmente, o papel do jornalismo impresso será o de promover o espaço para a reflexão mais aprofundada, para ser lida em pausa, já que o hard news está na internet.

Vejamos o caso específico do #ProtestoSC, sob a ótica de dois jornais locais: O Notícias do Dia fez uma edição especial inteiramente voltada para as manifestações em Florianópolis. Com direito a um cronograma dos acontecimentos sobre a maior manifestação (até agora) na capital do estado, ocupando as duas pontes que ligam à Ilha de Santa Catarina ao Continente.

O resultado final ficou interessante, e pode ser guardado como prova destes dias para os nossos netos, que perguntarão mais sobre a utilização do papel impresso do que sobre as manifestações. Mas tudo bem. Senti falta de análises mais elaboradas sobre as tentativas de apropriação de um movimento, inicialmente progressista, por ativistas de causas conservadoras.

É importante destacar o papel do Notícias do Dia na cobertura dos movimentos sociais nos últimos anos, com ênfase na área cultural, que, pela natureza mais complexa das suas demandas, sempre ganhou muita atenção. E é sobre o tipo de atenção dos cadernos de cultura que vou me ater em breve.

Já no Diário Catarinense (DC), também senti falta de uma avaliação mais apurada sobre o oportunismo de alguns nas manifestações. O destaque vai para o artigo de opinião do grupo RBS, dono da publicação, que abordou as três medidas práticas declaradas pela Presidenta Dilma Rousseff, em seu pronunciamento televisivo (em 21/06): os royalties do Petróleo para a Educação, Plano Nacional para o Transporte Público e a vinda de médicos do exterior, ressaltando o “combate à minoria violenta e autoritária” , sem citar, o que, na minha modesta opinião, é o ponto mais forte da fala da Chefe Maior do Executivo: A Reforma Política.

O DC também definiu a passeata como “multipartidária”, o que me parece um termo mais acertado do que “apartidária”. É uma massa muito diversa para se chamar de “A” alguma coisa.

Enfim, chego ao ponto pretendido para reflexão: é sintomático que os únicos textos que continham críticas à própria imprensa estejam no caderno de Cultura do DC. É ali que se fala do ativismo digital, e também sobre a memória de um movimento social que praticamente nasceu em Florianópolis. O assunto é apresentado claramente no texto do Fernando Evangelista e ganha uma importante reflexão de Celso Vicenze. Diante da velocidade da internet, não caberia aos Jornais e Revistas, enquanto prioridade, serem o suporte da reflexão e análise?

Ou será que estou viajando na batatinha?

Já me desculpando, de novo, pelos possíveis julgamentos tortos de alguém que não acompanha a mídia impressa como as demais (as quais tecerei um artigo específico e mais arrumadinho que este), ressalto que minha principal pretensão com estas mal traçadas linhas é descobrir quantos nerds resistem a um sabadão ensolarado em Floripa em dia do jogo do Brasil. Além disso, também quero registrar um agradecimento pelo convite do Marcos Espíndola, sempre atento nas barricadas, para escrever no tablóide.

O ativismo é 2.0. A repressão é medieval

“Quem te procurou? Quais os nomes? Você tem o contato deles?”. Essas foram as perguntas que tive que responder repetidamente durante os últimos seis dias para vários veículos de imprensa do país, a maioria deles de circulação nacional.

Tudo porque, em seu blog na revista Veja, o colunista Reinaldo Azevedo relacionou o registro do domínio mpl.org.br, em nome da Alquimídia.org e usado pelo Movimento Passe Livre (MPL), ao patrocínio de projetos culturais da associação, contemplados com editais públicos.

A Alquimídia é uma associação cultural que ajudei a fundar há cerca de dez anos, voltada para a comunicação e tecnologia. Trata-se de uma entidade que apoia diversos movimentos sociais e, principalmente, culturais. A Alquimídia foi criada justamente por um coletivo de mídia independente, formado por comunicadores que, na época, eram todos ligados ao site SARCASTiCOcomBR, cuja linha editorial é voltada para a cultura independente, crítica social e humor.

Pelo Sarcástico, diversas vezes realizei a cobertura de manifestações sociais. O Movimento Passe Livre, inclusive, é um dos movimentos que acompanho desde seu início, pois surgiu em Florianópolis, cidade em que resido. Em função do meu envolvimento com a internet, membros do MPL me procuraram em busca de auxílio para o registro de um domínio para o seu site. É importante deixar claro que o auxílio tecnológico para organizações e coletivos não formalizados fazia parte do escopo inicial da Alquimídia.org, e por isso providenciei o registro pela associação. Desde então, o site do MPL nunca foi usado de forma integral pelo movimento, que é descentralizado e utiliza uma infinidade de blogs em várias cidades do país. Apenas o coletivo de São Paulo optou por usar um subdomínio dentro da URL principal (saopaulo.mpl.org.br).

Com as recentes manifestações que aconteceram na maior cidade do país e, principalmente, devido aos seus desdobramentos dramáticos, tanto o Estado quanto boa parte da imprensa brasileira trataram de executar a prática padrão neste tipo de situação: identificar, responsabilizar, punir.

Só que desta vez, existem elementos novos nesta relação: a internet, a crise de representatividade na sociedade e o ativismo em rede.

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O MPL nasceu com uma geração cuja parcela considerável não se identifica com partidos, sindicatos e outras organizações formalizadas de gestão hierárquica e engessada. Essa geração olha com desconfiança para líderes estabelecidos. As garotas e garotos que estão nas ruas protestando, descobriram na web uma alternativa para se expressar sem a mediação de uma imprensa atrasada. Essas pessoas descobriram que, acima de tudo, as suas ideias podem ganhar força por elas mesmas, independente de projetos de poder ou negociatas. Praticam a disseminação das ideias em rede, que podem aproximar e levar pessoas às ruas.

O Movimento Passe Livre, assim como a Marcha das Vadias e tantos outros movimentos que se parecem mais com flashmobs do que com piquetes, não possui líderes. Essa é a única resposta que tenho dado a todos os que me perguntaram seus nomes.

Um grupo me procurou há anos atrás (não lembro, sinceramente, onde foi) e me pediu algo que eu poderia fazer, em favor de uma causa que julgo justa: o transporte público de qualidade para todos. Como uma coisa tão simples poderia ser usada de maneira tão vil? Hoje eu sei que pode, e está sendo usada.

Anos depois, no dia 7 de junho de 2013, por causa de protestos no dia anterior, a concessionária que administra a Linha 4-Amarela do Metrô de São Paulo entrou com um pedido na Justiça para impedir manifestações em suas dependências. Esse pedido foi direcionado à Associação Cultural Alquimídia devido ao registro do site. O recurso foi negado pela juíza Monica Lima Pereira, da 2.ª Vara Cível do Fórum Regional do Butantã, sob a justificativa de que “não demonstrou que os manifestantes tenham qualquer vinculação com a requerida Associação Cultural Alquimídia”.

No desespero de identificar, responsabilizar e punir, persegue-se o único elo identificável de um movimento social em rede: seu canal de comunicação. Essa estratégia é reproduzida pela imprensa, e na ânsia por atacar inimigos políticos e ganhar acessos, um colunista decide publicar uma trama na qual “uma associação cultural recebe recursos públicos desviados pelo PT para financiar protestos cujo desgaste político atinge o próprio Partido dos Trabalhadores”, conforme consta na coluna de Reinaldo Azevedo. Você pode ler novamente a frase, mas não conseguirá entender a lógica. Eu não entendi.

O mais impressionante é que essa tese difundiu-se com velocidade epidêmica. O resultado é que além da reprodução de acusações absurdas em blogs, sites e jornais, a foto do meu rosto foi parar em montagens nas mídias sociais, relacionando-me a com terroristas.

Minhas posições politicas são publicadas todos os dias na internet. Basta acessar meu blog para entender o quanto esta situação é, no mínimo, nonsense.

A Alquimídia.org é uma associação cultural que, como tantas outras, desenvolve projetos via editais e fundos de cultura. Projetos de cultura digital, mostras audiovisuais, produção de conteúdo. Esses projetos possuem cronograma, orçamento definido e prestação de contas. Uma acusação tão séria, baseada apenas na visualização de logomarcas do Governo Federal no site de uma instituição que não fez mais do que oportunizar um canal de comunicação, é mais do que uma tentativa de criminalização dos movimentos sociais. É, também, um ataque à liberdade de expressão.

É óbvio que toda violência deve ser condenada, assim como é muito claro que existem infiltrados de toda ordem de motivações em grandes manifestações sociais. A questão é que nada disso muda o fato dessas manifestações ganharem adesão cada vez maior no país.

O problema, mais uma vez, não está na internet, mas no dia-a-dia das pessoas que pagam impostos, trabalham mais do que seus corpos aguentam e precisam usar um transporte público de péssima qualidade. E pagando caro por isso.

É nisso que os governos e a imprensa deveriam estar trabalhando: no entendimento dos motivos que levam as pessoas a protestar, e não na promoção de uma surreal caça às bruxas.

A cada tentativa de deturpação, os motivos só aumentam.

Antes de falar sobre endereços eletrônicos, é necessário tratar do Marco Civil da Internet no Brasil, e esta situação envolvendo o site de um movimento social é mais um exemplo da urgência desta pauta.

Da sua fundação até hoje, a Alquimídia mudou parte de suas atividades. Estávamos fazendo a transferência de domínios que não possuem ligação direta com projetos mantidos pela associação. Tivemos que acelerar esse processo em função do desgaste e perseguição que estamos sofrendo por todo o tipo de gente, insuflada por acusações infundadas de um colunista.

Em função dessa situação, a Alquimídia.org iniciou os trâmites burocráticos para a transferência de propriedade do domínio mpl.org.br para a COMPAS – Associação Internacional de Comunicação Compartilhada. A COMPAS é uma associação mantida por jornalistas e ativistas da Ciranda.net (da qual participo), que alimentam o portal Ciranda.net entre outras ações de comunicação, e trabalham em defesa do midialivrismo e da liberdade de expressão.

A maior ironia de toda essa situação é que se o site do MPL sair do ar hoje, os principais afetados não são os ativistas do movimento. São os próprios governos e a imprensa, que para tentar entender o que está acontecendo, precisarão buscar informação por informação nas mídias e redes sociais, pois é por meio delas que as pessoas se articulam, expressam e sonham antes de se encontrarem nas ruas.

Se eu sei quem são? Não. Mas seus filhos podem estar lá.

Se eu sei seus nomes? Não. Também não sei onde moram.

Mas conheço os seus sonhos.

Obscenidades Catarinenses

Noite quente, casa lotada. A luz vai trocando de lugar com a fumaça, sinal de que em poucos minutos o show começa. Com suas longas orelhas de coelho, ela rebola, grita, canta, ri e bebe ao som de música eletrônica. Ela desce do palco, conversa com todos os presentes em um inglês tão apertado quanto as suas vestes fetichistas.

E assim segue o espetáculo Kassandra, produzido pela La Vaca Productora de Arte, com a atriz Milena Moraes e direção de Renato Turnes. A temporada de estreia foi financiada pelo Prêmio Myriam Muniz, da Fundação Nacional das Artes (FUNARTE) de Teatro. Até então inédito no Brasil, o texto de Kassandra é do dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco, que escreveu a peça propositadamente em um inglês precário para representar um idioma de sobrevivência. Outra exigência do autor é a de ser encenada em espaços não-convencionais. Em Florianópolis, Kassandra ganhou vida no Bokarra Club, a mais conhecida casa de “diversão adulta” da cidade.

O local de apresentação nunca foi um problema, até uma gravação de uma festa promovida pela prefeitura de Palhoça no Dia Internacional da Mulher com a participação de um gogo boy aparecer na mídia. Este fato levou o Governo Catarinense a condicionar a liberação dos recursos do Funcultural para a Maratona Cultural à mudança de local de apresentação de Kassandra, já que o espetáculo havia sido convidado a integrar a programação do evento.

O que o ânus tem a ver com as calças, ou melhor, com as orelhas? Só a mentalidade exótica dos governantes catarinenses e dos moralistas de plantão pode fornecer algum tipo de pista.

Além da decisão dos produtores de Kassandra de cancelar o espetáculo, o veto do governo catarinense provocou várias retiradas de outros espetáculos da programação da Maratona Cultural por parte dos produtores em solidariedade e protesto aos rumos da política cultural no Estado. Também se reproduzem a cada dia as manifestações de repúdio, como da Federação Catarinense de Teatro (Fecate), do Centro de Artes da Udesc e o do Fórum Setorial de Teatro.

Além da sociedade civil organizada, outras manifestações de protesto partem de indivíduos conectados à internet, como a “Maratona Cultural Livre”, uma plataforma colaborativa de mapeamento de atividades culturais independentes e a “Ocupação Coelho de Troia”, na qual os artistas, produtores e público são convocados a aderir ao movimento de protesto comparecendo aos eventos utilizando uma máscara de coelho, em alusão à personagem Kassandra.

O espetáculo Kassandra é inspirado na personagem mítica da Guerra de Troia: Uma princesa com o dom da vidência que é considerada louca e não consegue convencer seu povo do massacre iminente. Ao que parece, mais uma vez Kassandra encontrou seu trágico destino na ignorância dos homens.

Atualização

Cobertura in loco (pelo celular) da Operação Coelho de Tróia durante a peça Anti-Nelson Rodrigues, no Teatro da Ubro no dia 23/03/2013: http://mobile.skarnio.tv/tag/coelho-de-troia Registro em vídeo do manifesto: http://vimeo.com/62557028.