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Adeus, provocador

provocadorAntônio Abujamra (1932-2015)

 

A saga do Jim Jones tropical e os seus dissidentes

Não tenho nenhum depoimento sofrido sobre o Fora do Eixo. Não tenho ilusões perdidas, expectativas frustradas, tampouco temor em jogar fora a água da bacia junto com o bebê.

Não tenho nada disso porque nunca nutri confiança em um projeto político de poder travestido de vanguarda. Salvo por um breve período, após as ressalvas de um amigo cujo histórico de atuação no movimento cultural precedia a atuação do FdE, um coletivo, que em sua visão, tinha um “potencial muito forte para o fortalecimento de políticas públicas no Brasil”.

Em função desta perspetiva, fui no 4º Congresso Fora do Eixo ver de perto do que se tratava o Partido da Cultura” (Pcult), uma proposta para destacar as bandeiras do setor cultural através de articulações suprapartidárias pelo país. Era 2011, ano pré-eleitoral.

Após uma empolgação inicial em ver aquela garotada toda se movimentando em função de bandeiras bacanas como a cultura livre e a organização em rede, fui notando que as coisas não aconteciam exatamente como pareciam. Logo na abertura do evento, que contou com a presença no palco de uns seis ou nove jovens que subiram e desceram do mesmo jeito: Calados. Após 45 minutos de um discurso repleto de frases de efeitos e bravatas de Pablo Capilé, idealizador e gestor do coletivo.

Até então, minha experiência mais direta com o Fora do Eixo foi no UFSCTOCK daquele mesmo ano, em Florianópolis, no qual me convidaram a participar de uma mesa sobre Cultura Digital. No fim do debate, cada participante foi questionado sobre o que achava do trabalho do Coletivo, no que respondi “Acho interessante. É um movimento social que mistura ativismo com técnicas de franchising”. Só me dei conta do caráter “afrontoso” da frase quando me depararei tanto com as reações dos membros do FdE quanto dos meus colegas de mesa. De fato, naquele momento, era uma análise crua e simples que me veio à mente.

Mal sabia eu que a minha impressão se confirmaria tão cedo, meses depois, no Congresso FdE, em São Paulo. Perdi a conta do número de vezes que ouvi declarações como “nós eramos o coletivo das Margaridas, da cidade das Batatinhas, hoje somos a Casa FdE Batatinhas”. Após outros exemplos de pasteurização de iniciativas, cheguei a conclusão de que o FdE era apenas mais um projeto de poder em si mesmo quando ouvi repetidas vezes que o “Partido da Cultura poderia, um dia, ter candidatos próprios nas próximas eleições”.

Meses depois, aquele mesmo amigo que me instigou a conhecer o FdE teve sérios problemas de divergência com a cúpula do coletivo, tendo que se desligar de uma maneira abrupta. Com o afastamento dele e a minha experiência no congresso, foi-se a única tentativa de crédito ao grupo.

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Um dia, eles batem na sua porta: As Testemunhas de Capilé.

 

O X da questão

Projetos de poder nascem todos os dias. O problema do FdE é a demagogia.

Demagogia esta que atrai muita gente boa, identificada com dinâmicas como o colaborativismo, ação em rede e a cultura digital. E é neste ponto que reside o maior perigo de um projeto falacioso: a frustração de centenas de jovens com conceitos e dinâmicas que foram usados de forma distorcida.

O Fora do Eixo não é uma rede horizontal. Não existe núcleo-duro e personalismo em rede horizontal. O FdE é um coletivo com uma forte estrutura hierárquica que manipula os seus integrantes, que, em sua maioria, pertencem à faixas etárias suscetíveis à influências externas. Além destas características, o FdE usa de coerção psicológica para inibir os membros dissidentes, o que faz com que a sua organização se aproxime mais de uma seita do que de um movimento social.

Para quem circula pelo país e lida com várias outras organizações ligadas à cultura, comunicação e movimentos sociais, não existe muita novidade na onda de relatos e informações que aparecem todos os dias após a entrevista de Pablo Capilé em Bruno Torturra no programa Roda Viva do dia 5 de Agosto por conta da atuação da Mídia Ninja (criada dentro do FdE) nas Jornadas de protestos de Junho no Brasil. O que era até então boato e desabafo amedrontado, ganhou assinatura nas redes sociais.

O fato das pessoas não acharem ruim serem identificadas como escravas, ou partilhar de um projeto de poder de um aparente Tyler Durden (mas que na verdade, não passa de um Edir Macedo hipster), é problema delas.

O problema é obsessão do Fora do Eixo em querer se apresentar como a “nova cultura brasileira” (como eles mesmos se definiram algumas vezes). Não são.

Nenhuma rede, coletivo ou organização será capaz de representar a cultura brasileira em sua totalidade, diversidade e amplitude.

Se não fosse a necessidade constante do FdE em querer ser a “rede das redes” dos movimentos sócio-culturais, provavelmente eu nem me daria ao trabalho de estar escrevendo.

A “Rede das Redes” foi mais uma tentativa de emplacar outra “Marca FdE” nos movimentos culturais. A tal rede seria uma articulação entre todos os movimentos. Para isso estava sendo gestada uma “Embaixada das Redes” (ou coisa parecida) em Brasília. Gerenciada por membros do FdE, é claro.

Após contestar a tal rede em listas de discussão na internet, ganhei uns 100 seguidores em cada mídia social. A maioria com Fora do Eixo no perfil. Acredito que a ideia era começar a dar os nós na rede pelo monitoramento diário de quem a contesta…

 

Mais Samurais Ronins e menos Ninjas Marqueteiros

Como o projeto dentro da Cultura estava encontrando muita gente rancorosa e briguenta, o FdE passou investir na área da comunicação, após as experiências bem sucedidas na Marcha da Liberdade. Assim nasce a “Mídia Minja”, que, mais uma vez, coloca logomarca e roupagem descolada em ações realizadas há anos por militantes pela democratização da comunicação e mídia independente. Como num passe de mágica, “Mídia Ninja” passa a significar “Mídia Alternativa” no debate público.

A Mídia Ninja é apenas mais uma mídia, e não “o paradigma”. Pode ser novidade para os jornalões decrépitos que precisam de rótulos novos, mas, para quem cobre manifestações há anos, não é.

Seria mais coerente para todos, inclusive para a própria base do Fora do Eixo – que acredito sinceramente ter muita gente bem intencionada e disposta a “construir um mundo melhor” – que o coletivo se organizasse como uma grande cooperativa de trabalho, já que nisso, a sua capacidade de articulação é inegável: Reunir uma base de trabalho fiel e fazer um bom marketing em cima.

Ou será que alguém cai ainda nessa história de “Vida FdE”? De que a sua rotina “não se equipara a nada criado na face da terra até então, e, portanto, não é possível adequar tanta novidade aos modelos existentes de organização social”?

Procuro relacionar os acontecimentos políticos mais emergentes sob a perspectiva da crise de representatividade na sociedade. Talvez aspecto mais positivo de toda a questão do Fora do Eixo seja demosntrar, mais uma vez, para a juventude, que ela não precisa de gestores, representantes ou qualquer outro agenciador das suas aspirações. Por mais moderninhos que eles pareçam.

Mais importante do que fazer parte de uma “rede” na qual você não sabe exatamente o que falam em seu nome em gabinetes fechados em Brasília, é se juntar aos seus pares na sua cidade e fazer a cena acontecer nela mesma.

Que a juventude brasileira aproveite o embalo das Jornadas de Junho (o mês que não vai acabar tão cedo) e se desligue cada vez mais de organizações corporativas, partidárias, religiosas e, principalmente, das que misturam tudo.

O ativismo é 2.0. A repressão é medieval

“Quem te procurou? Quais os nomes? Você tem o contato deles?”. Essas foram as perguntas que tive que responder repetidamente durante os últimos seis dias para vários veículos de imprensa do país, a maioria deles de circulação nacional.

Tudo porque, em seu blog na revista Veja, o colunista Reinaldo Azevedo relacionou o registro do domínio mpl.org.br, em nome da Alquimídia.org e usado pelo Movimento Passe Livre (MPL), ao patrocínio de projetos culturais da associação, contemplados com editais públicos.

A Alquimídia é uma associação cultural que ajudei a fundar há cerca de dez anos, voltada para a comunicação e tecnologia. Trata-se de uma entidade que apoia diversos movimentos sociais e, principalmente, culturais. A Alquimídia foi criada justamente por um coletivo de mídia independente, formado por comunicadores que, na época, eram todos ligados ao site SARCASTiCOcomBR, cuja linha editorial é voltada para a cultura independente, crítica social e humor.

Pelo Sarcástico, diversas vezes realizei a cobertura de manifestações sociais. O Movimento Passe Livre, inclusive, é um dos movimentos que acompanho desde seu início, pois surgiu em Florianópolis, cidade em que resido. Em função do meu envolvimento com a internet, membros do MPL me procuraram em busca de auxílio para o registro de um domínio para o seu site. É importante deixar claro que o auxílio tecnológico para organizações e coletivos não formalizados fazia parte do escopo inicial da Alquimídia.org, e por isso providenciei o registro pela associação. Desde então, o site do MPL nunca foi usado de forma integral pelo movimento, que é descentralizado e utiliza uma infinidade de blogs em várias cidades do país. Apenas o coletivo de São Paulo optou por usar um subdomínio dentro da URL principal (saopaulo.mpl.org.br).

Com as recentes manifestações que aconteceram na maior cidade do país e, principalmente, devido aos seus desdobramentos dramáticos, tanto o Estado quanto boa parte da imprensa brasileira trataram de executar a prática padrão neste tipo de situação: identificar, responsabilizar, punir.

Só que desta vez, existem elementos novos nesta relação: a internet, a crise de representatividade na sociedade e o ativismo em rede.

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O MPL nasceu com uma geração cuja parcela considerável não se identifica com partidos, sindicatos e outras organizações formalizadas de gestão hierárquica e engessada. Essa geração olha com desconfiança para líderes estabelecidos. As garotas e garotos que estão nas ruas protestando, descobriram na web uma alternativa para se expressar sem a mediação de uma imprensa atrasada. Essas pessoas descobriram que, acima de tudo, as suas ideias podem ganhar força por elas mesmas, independente de projetos de poder ou negociatas. Praticam a disseminação das ideias em rede, que podem aproximar e levar pessoas às ruas.

O Movimento Passe Livre, assim como a Marcha das Vadias e tantos outros movimentos que se parecem mais com flashmobs do que com piquetes, não possui líderes. Essa é a única resposta que tenho dado a todos os que me perguntaram seus nomes.

Um grupo me procurou há anos atrás (não lembro, sinceramente, onde foi) e me pediu algo que eu poderia fazer, em favor de uma causa que julgo justa: o transporte público de qualidade para todos. Como uma coisa tão simples poderia ser usada de maneira tão vil? Hoje eu sei que pode, e está sendo usada.

Anos depois, no dia 7 de junho de 2013, por causa de protestos no dia anterior, a concessionária que administra a Linha 4-Amarela do Metrô de São Paulo entrou com um pedido na Justiça para impedir manifestações em suas dependências. Esse pedido foi direcionado à Associação Cultural Alquimídia devido ao registro do site. O recurso foi negado pela juíza Monica Lima Pereira, da 2.ª Vara Cível do Fórum Regional do Butantã, sob a justificativa de que “não demonstrou que os manifestantes tenham qualquer vinculação com a requerida Associação Cultural Alquimídia”.

No desespero de identificar, responsabilizar e punir, persegue-se o único elo identificável de um movimento social em rede: seu canal de comunicação. Essa estratégia é reproduzida pela imprensa, e na ânsia por atacar inimigos políticos e ganhar acessos, um colunista decide publicar uma trama na qual “uma associação cultural recebe recursos públicos desviados pelo PT para financiar protestos cujo desgaste político atinge o próprio Partido dos Trabalhadores”, conforme consta na coluna de Reinaldo Azevedo. Você pode ler novamente a frase, mas não conseguirá entender a lógica. Eu não entendi.

O mais impressionante é que essa tese difundiu-se com velocidade epidêmica. O resultado é que além da reprodução de acusações absurdas em blogs, sites e jornais, a foto do meu rosto foi parar em montagens nas mídias sociais, relacionando-me a com terroristas.

Minhas posições politicas são publicadas todos os dias na internet. Basta acessar meu blog para entender o quanto esta situação é, no mínimo, nonsense.

A Alquimídia.org é uma associação cultural que, como tantas outras, desenvolve projetos via editais e fundos de cultura. Projetos de cultura digital, mostras audiovisuais, produção de conteúdo. Esses projetos possuem cronograma, orçamento definido e prestação de contas. Uma acusação tão séria, baseada apenas na visualização de logomarcas do Governo Federal no site de uma instituição que não fez mais do que oportunizar um canal de comunicação, é mais do que uma tentativa de criminalização dos movimentos sociais. É, também, um ataque à liberdade de expressão.

É óbvio que toda violência deve ser condenada, assim como é muito claro que existem infiltrados de toda ordem de motivações em grandes manifestações sociais. A questão é que nada disso muda o fato dessas manifestações ganharem adesão cada vez maior no país.

O problema, mais uma vez, não está na internet, mas no dia-a-dia das pessoas que pagam impostos, trabalham mais do que seus corpos aguentam e precisam usar um transporte público de péssima qualidade. E pagando caro por isso.

É nisso que os governos e a imprensa deveriam estar trabalhando: no entendimento dos motivos que levam as pessoas a protestar, e não na promoção de uma surreal caça às bruxas.

A cada tentativa de deturpação, os motivos só aumentam.

Antes de falar sobre endereços eletrônicos, é necessário tratar do Marco Civil da Internet no Brasil, e esta situação envolvendo o site de um movimento social é mais um exemplo da urgência desta pauta.

Da sua fundação até hoje, a Alquimídia mudou parte de suas atividades. Estávamos fazendo a transferência de domínios que não possuem ligação direta com projetos mantidos pela associação. Tivemos que acelerar esse processo em função do desgaste e perseguição que estamos sofrendo por todo o tipo de gente, insuflada por acusações infundadas de um colunista.

Em função dessa situação, a Alquimídia.org iniciou os trâmites burocráticos para a transferência de propriedade do domínio mpl.org.br para a COMPAS – Associação Internacional de Comunicação Compartilhada. A COMPAS é uma associação mantida por jornalistas e ativistas da Ciranda.net (da qual participo), que alimentam o portal Ciranda.net entre outras ações de comunicação, e trabalham em defesa do midialivrismo e da liberdade de expressão.

A maior ironia de toda essa situação é que se o site do MPL sair do ar hoje, os principais afetados não são os ativistas do movimento. São os próprios governos e a imprensa, que para tentar entender o que está acontecendo, precisarão buscar informação por informação nas mídias e redes sociais, pois é por meio delas que as pessoas se articulam, expressam e sonham antes de se encontrarem nas ruas.

Se eu sei quem são? Não. Mas seus filhos podem estar lá.

Se eu sei seus nomes? Não. Também não sei onde moram.

Mas conheço os seus sonhos.

Tem gente se animando na Câmara dos Deputados

comissao_malignaPossibilidade surreal demais? Infelizmente, não é.
Não deixe que o escracho seja pior. Assine: https://www.allout.org/pt/actions/FelicianoNao

VatiLeaks

papa_vazandoSerá que foi o vazamento dos documentos do Vaticano que fez o Papa vazar?
Ou é só mais um trocadilho infame?