Arquivos de Categorias: Texto - Page 2

Infelicidade

Desde sua indicação e conturbada eleição para presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara no dia 7 de março, o Deputado e Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) é motivo de uma onda crescente de indignação nas ruas e nas redes.

Dos acordos obscuros entre partidos e parlamentares que levaram a eleição de um deputado homofóbico e racista até a necessidade de uma Reforma Política no país, milhares de pessoas promovem petições, abaixo-assinados e eventos de repúdio.

Organizados de forma autônoma pela internet, os eventos acontecem em várias cidades brasileiras. Muitos em sua segunda edição.

A ação legislativa de Feliciano é única e exclusivamente dedicada aos interesses da bancada fundamentalista, conhecida pela sua intolerância e obtusidade. A eleição do Deputado Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara vai contra as atribuições da própria comissão! Além de ser imoral, pode ser considerado até ilegal.

Por falar em legalidade, além de ser gravado “ganhando” dinheiro de um cadeirante, Feliciano responde uma ação penal e a um inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal) por estelionato.

Por estes e outros fatos, nem o que seriam teoricamente seus pares, os evangélicos, concordam com o nome de Feliciano para a cadeira. A Rede Fale – que representa 39 grupos religiosos – lança um abaixo-assinado e carta aberta na internet, além de pedido de audiência pública contra a nomeação.

Muitos questionam efetividade de tantas cartas, petições e manifestações que, de fato, podem não tirar cargo de ninguém. Ainda. Mas neste momento de avanço obscurantista na política nacional, o simples fato de ocupar a mídia, internet e as ruas com questões que envolvem, acima de tudo a urgência de um Estado Laico de fato, já é uma luz no fim do túnel.

AGENDA (atualizada em 15/3)

São Paulo http://www.facebook.com/events/340454419387589/
Rio de Janeiro http://www.facebook.com/events/321823457920482/
Brasília http://www.facebook.com/events/481740001891799/?ref=3
Florianópolis https://www.facebook.com/events/554527081236012/
Natal http://www.facebook.com/events/106407749549095/
Porto Alegre http://www.facebook.com/events/548803448483326/
Fortaleza http://www.facebook.com/events/228308493980868/?ref=3
Belo Horizonte https://www.facebook.com/events/348104915294107/
Curitiba https://www.facebook.com/events/459834907423566/?ref=3
Volta Redonda http://www.facebook.com/events/455415371197056/
Ribeirão Preto http://www.facebook.com/events/492679180793670/?ref=3
João Pessoa http://www.facebook.com/events/140060902832186/?ref=3
Cabo Frio http://www.facebook.com/events/548803448483326/
Chapecó http://www.facebook.com/events/117488858437334/
Salvador http://www.facebook.com/events/563738633650470/?ref=3
Fortaleza https://www.facebook.com/events/228308493980868/?ref=3
Campinas http://www.facebook.com/events/503400349718541/?ref=3
Jundiaí http://www.facebook.com/events/433235110085109/
Belém http://www.facebook.com/events/279062932228018/?ref=3
Recife http://www.facebook.com/events/259381697531265/?ref=3
Santos http://www.facebook.com/events/549033978461063/
Pelotas http://www.facebook.com/events/431085240309623/?ref=3
Santo André http://www.facebook.com/events/135207669992438/?ref=3
Jacarezinho http://www.facebook.com/events/436914013060257/
São Carlos http://www.facebook.com/events/225014687637354/
São José dos Campos http://www.facebook.com/events/289873961142702/?ref=3
Paraty (entre em contado com www.facebook.com/luizakp)
Buenos Aires http://www.facebook.com/events/363210527125800/
San Francisco https://www.facebook.com/events/226741177463779/?context=create
Paris http://www.facebook.com/events/113224145535118/

PETIÇÃO
Petição que pede a destituição de Feliciano da CDHM:
http://www.avaaz.org/po/petition/Imediata_destituicao_do_Pr_Marco_Feliciano_da_Presidencia_da_Comissao_de_Direitos_Humanos_da_Camara_Federal/?tfYbjeb

HASHTAG (sugerida): #ForaFeliciano

Lá no estrangeiro

Não é o caso de não me interessar por política internacional. Pelo contrário. A questão é unicamente de perspectiva, colocando cada espaçonave no seu planeta natal, porque de alienígenas já temos em demasia no cinema. Não duvido que um adolescente, aquele típico rapazote que curte esportes, baladas e outras diversões, saiba mais nomes de presidentes dos Estados Unidos do que do Brasil. Do Sarney para trás quase ninguém lembra, tirando o Juscelino, o Getúlio e, talvez, o Floriano Peixoto – mas só porque Florianópolis deve seu nome ao marechal das mãos de ferro. É só comparar os destaques na mídia que obtiveram Lincoln, de Steven Spielberg, e Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto.

Mas lá no estrangeiro as coisas não são com aqui. Se as percepções sociais mudam de estado para estado, mesmo de cidade para cidade, imaginem de um país para o outro! Por certo que muitos dos problemas são os mesmos, como o déficit educacional, a inoperância do sistema de saúde, as infraestruturas que distanciam ainda mais os ricos dos pobres. Ainda assim, estamos juntos, como num casamento aberto, unidos por nossas semelhanças e diferenças. Se as bombas atômicas explodirem, não vai adiantar muito ter dinheiro ou notas promissórias; isso que é matrimônio! Por isso nos preocupamos sempre com tudo.

O caso que me aborrece é o daquele sujeito que reclama das cobranças do FMI, mas não aceita que o vizinho venha lhe pedir para fazer menos barulho. Esse cidadão é mesmo um pulha, porque logo que soube da morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, veio com suas teorias e opiniões sobre direita/esquerda, a América Latina, e o mundo contemporâneo. E enquanto ele fala, entre um gole e outro de cerveja, os outros presentes no botequim continuam jogando sinuca, como se fosse possível colocar a bola preta da política internacional no buraco do canto.

chavez

Chávez deixou a franquia presidencial no dia 05/03/2013, tendo a ocupado desde o dia 02/02/1999. Com sua morte em Caracas, aos 58 anos, pouco ou nada mudará na vida do pulha barulhento – salvo se este promover uma festa bolivariana para homenagear Chávez até as altas horas da madrugada, para azar de seu vizinho. Porque todos entendem muito mais da vida dos outros do que das suas próprias. “O gramado do vizinho venezuelano é mais bonito que o meu”, eles dizem. E citam também Cuba enquanto único foco de resistência nesse planeta globalizado: abaixo as oligarquias!

E há tamanha bobagem espalhada nesses discursos de frases feitas que o convite ao riso é inevitável. Brasil, Venezuela, Cuba, Estados Unidos; não importa o país se qualquer um acreditar que tomar partido é fechar os olhos para os desvios de conduta internos. A favor de uma revolução que só existe na ficção da má literatura, aqueles complacentes partidários apoiam regimes de exceção, ditaduras travestidas de democracias, ações de governos que não representam as obrigações do Estado, e por aí vai. Quem aceita isso com devoção é mau caráter. O tipo de pessoa que deseja salvar a humanidade, mas não dá bola para o ser humano ao lado, pedindo por socorro. E é realmente lamentável que esta postura seja tão bem distribuída entre a esquerda, a direita e todo o resto.

O adeus de Chávez acontece por que a morte é tão inevitável quanto rir de uma piada. Mal comparando, podemos dizer que sua existência não poderia ter sido diferente de um romance sem final feliz. O presidente-comandante Hugo Chávez sobreviveu aos golpes políticos, mas perdeu a briga para o câncer. E esta é uma história tão comum entre nós que pode ser entendida como outra oportunidade para conhecer a si mesmo, atendendo o apelo da pitonisa de Delfos – afinal, já na Grécia de outrora alguns percebiam que lá do estrangeiro não virão apenas boas notícias.

Santinha busca apoio

Jone Schuster é o que se pode chamar de agitador cultural. Envolvido com a cultura na região oeste catarinense, da articulação dos Pontos de Cultura à produção audiovisual, Jone tem chamado a atenção pelo tom provocativo de seus vídeos, que já lhe custou o cargo de Diretor Municipal de Cultura de Maravilha pela realização de “D’Exibicionismo”, um curta-metragem no qual somente as mentes mais depravadas poderiam encontrar algum tipo de atentado ao pudor entre seus frames.

A nova empreitada do diretor se chama “Santinha“, um curta sobre uma menina cega que é considerada uma Santa pela população local. Para a protagonista, Schuster convidou Mônica Mattos, que leu o roteiro, gostou, e topou. Apesar da longa experiência no audiovisual, com direito ao “Oscar” da sua categoria, esta é a quarta vez que Mônica se aventura em outros produções com mais peças no figurino.

Com exceção de Mattos, todos os demais atores moram ou nasceram na região oeste de Santa Catarina, inclusive o desenhista Regis Pessaroli, responsável pela animação presente no curta, “a história dentro da história”, segundo o diretor. Regis, assim como boa parte da equipe de Santinha, foi aluno em uma das oficinas oferecidas pela 3’K-Xolas, associação criada por Jone e amigos.

A trilha sonora fica por conta das bandas Epopeia e John Filme (Chapecó), Confraria da Costa (Curitiba), Os Generais (Maravilha) e o cantor Beto Só (Brasília).

Dia 15 de março começam os ensaios e coquetel em comemoração ao início das filmagens, com equipe e patrocinadores. A produção do curta Santinha continua procurando de apoio e patrocínio. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail filmesantinha @ globomail.com. Oportunidade única aos empresários que podem ao mesmo tempo, incentivar a produção local e associar a sua marca ao prestígio de uma estrela internacional.

Quase uma ressaca

Ali perto do agito das ruas, quando o Carnaval se faz vibrar, seja pelo balanço dos corpos ou pela elevação das ondas sonoras, alguém descansava enquanto um ou outro folião ainda caminhava apressado, segurando parte da fantasia que levaria para a avenida. Sábado de Carnaval na cidade, quando o Centro ferve e a passarela pulsa naquele dia que é o cerne de sua existência. Florianópolis coloca, pois, uma máscara e transforma o calor do verão em motivo de alegria e êxtase.

Ainda que meus anos não sejam muitos, como são os dos meus mestres e mestras, também posso dizer que já tive “meus dias de Carnaval”, idos e vividos com mais intensidade do que agora. As brincadeiras de rua em Canasvieiras, no tempo da efervescência gringa. Seguindo o trio elétrico, ou uma caixa de som qualquer, tanto na Lagoa da Conceição quanto no Centro da Ilha e, até mesmo, no Kobrasol da vizinha São José. O que me pesa hoje não é a desculpa da idade, mas sim uma quase ressaca de uma festa grande demais para mim.

Mesmo deitado, não muito longe da Praça XV de Novembro, o descanso não é interrompido por nada. Não há tamborim, cuíca ou pandeiro capaz de provocar outra reação que não a trégua de si mesmo. Ele passaria despercebido, não fosse uma ligeira simpatia de relance, motivo de uma crônica de jornal, dessas que se confundem com contos, desses que aumentamos um ponto ou dois.

Se o Carnaval de Florianópolis mudou e, quiçá, continua a mudar, tão normal é a sensação nostálgica que esse fenômeno provoca. E, assim, para uns as lembranças dos carros de mutação, para outros memórias de pessoas que já nos deixaram e que, não por acaso, também se esbaldavam nas festas do Mercado Público e de outros tantos lugares à beira mar – porque os aterros ainda são adolescentes procurando uma razão de ser nesta Ilha.

Quando o repouso chega ao fim, aquele mesmo homem de barba cor de palha, um jeito assim meio boêmio / meio Machado de Assis, soergue o corpo um bocado dolorido e seu caminho vai se perder desta narrativa nalguma esquina da Felipe Schmidt, não sem antes deixar uma impressão de cumplicidade, uma felicidade íntima e sem explicação, razão mor destas mal traçadas.

Catastrófico tudo

Entre mortos e feridos, de concreto sobram apenas as paredes que sustentam o caos e a miséria. Se nem tudo é engraçado e se não podemos nos dar ao luxo (qual Balzac teria feito) em chamar a realidade de “a comédia humana”, preferimos um caminho mais sensato, coerente e contextualizado. Um dos males da mídia – além de ter se tornado multimídia – está na exploração de superfícies que não lhe dizem respeito. E é o que acontece, também e novamente, com esta tragédia que ocorreu na cidade de Santa Maria (RS), no último domingo, 27/12/2013.

Deus, a ciência ou outro ponto de vista teve alguma influência sobre estes acontecimentos, pois permitiu a todos nós o direito das múltiplas possibilidades. Há, na mesma medida, uma enorme e esplendorosa capacidade para sermos sábios ou burros. Olhando pela janela, ou lendo um jornal (ou um blog) parece que a burrice é uma possibilidade mais fácil, porque requer menos esforço, apesar do alto custo que sempre aparece a posteriori. Inescapável asneira se dá na mídia ao cogitar ser um poder – o quarto, dizem uns mais abobados – que lhes escapa desde a sua origem. Mas é tênue a linha entre a justiça e a opinião. Dotados somos todos de opinar, já a competência de julgar escapa-nos em grande escala: do repórter que pergunta como a mãe que perdeu a filha está se sentindo ao juiz do Supremo que entende a lei à maneira que lhe convém.

Em tempos de guerra, morrem os novos. Em tempos de paz, os velhos. A guerra travada na boate Kiss em Santa Maria não contou com a presença de fuzis ou soldados. Mas como num exército, a maioria dos presentes era jovem. Numa contagem de mortos que parece não estancar (mais de 230 pessoas até o momento em que este texto era escrito) está quantificada o custo de uma guerra que acontece com a mídia, e não apesar dela. Jornais impressos ou virtuais, programas de rádio ou de televisão expõe as falhas que levaram ao incêndio acidental.

“Tragédia anunciada”, pregam os especialistas

Um sinalizador é apontado como o estopim, mas os problemas como que existiam desde sempre. E este é o ponto cego, seja para a política, para a polícia ou para a imprensa. As leis que não se cumprem, qual o alvará negado que deveria ter impedido a boate de funcionar, arrastam consigo a distopia presente do “catastrófico tudo”. Nem adianta correr ou chorar, porque as tragédias estão anunciadas muito antes das previsões que Nostradamus viu em sua bacia.

A boate Kiss (Beijo, em inglês) é o cenário dessa destruição definitiva. O julgamento final, como diz a Bíblia (religião e punição) ou como o James Cameron indicou em O Exterminador do Futuro 1 e 2 (tecnologia e auto-aniquilação). O Beijo da morte não poderia ter escolhido palco mais trágico: uma festa reunindo universitários e outros jovens em busca diversão. Mas o domingo também era um dia do catastrófico tudo. Diversão versus segurança. Paz versus Guerra.

A absolvição, como em outras tragédias deste porte, não virá de modo reconfortante. A justiça não restitui determinadas perdas – equação visível na catástrofe das vítimas no trânsito, dos violentados em roubos, sequestros, espancamentos, das mortes em conflitos armados, dos que padecem de fome, doença… é este catastrófico tudo invisível para uma imprensa que não se cansa de dizer, escrever, noticiar mais do mesmo.

 > São José/SC, 28/01/2013.